quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Pequena Dose De Surrealismo Do Dia


Um muro de tijolos pintados de verde, uma porta vermelha.

Um elefante marinho de cartola bebendo Martini. Ele levanta os olhos lacrimejantes e diz:
“Não se aflija, o glacê do bolo ainda não virou borboleta”

Estrelas caem do céu, uma delas atinge a cabeça de um anão careca. Ele abre resmungando seu guarda-chuva cor-de-abóbora e vai embora voando.

Um buraco se abre no piso xadrez e vomita um urubu de bigodes que comenta algo sobre cacatuas atletas olímpicas e se dissolve em mil cavalos-marinhos alados.

Um barqueiro em traje de gala sobe o rio de chocolate em um submarino amarelo. De repente girassóis gigantes brotam de seu chapéu de caubói e ele submerge no rio.

Um unicórnio com três chifres galopa em um campo de morangos enquanto cogumelos fosforescentes dançam frevo.

Um corvo grita “nevermore” entre relógios derretidos e José dança um tango argentino.

Caravelas despontam no horizonte, suas velas são púrpuras. Atiram com seus canhões tortas de maçã carameladas e os ratos fantasiados de esquilos festejam.

Uma placa surge com os dizeres “Mif. Arobme av, agehc.”

“And you’re gone”.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Choro



Acordou aquele dia sem querer acordar. Seu subconsciente estava cheio de memórias recortadas de vidas que não eram suas, de agonias que não eram suas, de pensamentos que não eram seus.

Ou eram?

No momento em que assim os sentiu, tornaram-se seus. Permitiu que grudassem em seu peito tal como chiclete mascado em cabelo de criança - ou pior, visto que impossível de cortar fora.

Sua vida parecia-lhe feita de fragmentos de papel colorido embolorado colados uns aos outros com fita-crepe vermelha. Pedaços desconectados de uma personalidade fraturada, metáforas irônicas de carne-e-osso-e-sangue. Sensações disparatadas, razões desatinadas, emoções muito bem mal acabadas.

Levantou-se a contragosto e acendeu um cigarro. Há tempos não fumava pela manhã, mas talvez isso a ajudasse a organizar os pensamentos.

Ou não.

Não queria chorar. Não devia. Não havia porquê.

Chorou. Chorou um mundo de vivências que eram suas e não eram. Chorou o desconforto vindo do saber-se existir. Chorou o desabafo silencioso da dor e da delícia de ser gente e perceber-se vivo.

Soube então que as lágrimas não eram fraqueza. Eram força. Força líquida e concentrada que transbordava e escorria e fazia-se presente no mundo das coisas essencialmente indescritíveis e que a tristeza era parte do ser feliz.

Sorriu.

E foi ser feliz.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Consonância Noturna


Pessoas, padrões, portões.
Personagens perfeitos:
Ações.

Desvios desviantes, desviados.
Delírios desenhados:
Desvairados.

Obras e ombros observados.
Olhares obscuros:
Desnudados.

Elos, castelos, emoções.
Espíritos errantes:
Diversões.

...

Explosões.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Rotina II


E eis o que acontece.

A Rotina, aquela sóbria senhora burocrata em seu terno impecável estritamente bem alinhado, anda arrastando correntes às minhas costas feito assombração barata de filme de terror.

Os Pequenos Momentos Divertidos Do Dia-a-Dia tentam a todo custo afastá-la com suas estripulias coloridas e seus paninhos cintilantes. Rotina tem horror às coisas imprevisíveis e barulhentas, assusta-se ao menor sinal de descontrole e esconde-se atrás da porta opaca do Tédio. Os Pequenos Momentos Divertidos acham muita graça nisso, correm em sua frente e dão cambalhotas, sujando a casa com lantejoulas e fazendo bolhas caleidoscópicas, gargalhando desregradamente até caírem no chão.

Mas ela é persistente. Espera pacientemente pela inevitável ocasião em que os Pequenos Momentos Divertidos Do Dia-a-Dia estarão cansados e não pensarão em qualquer outra coisa se não suas próprias camas de sonhos cor-de-abóbora e então se sentará, pesada e afetadamente, em minha poltrona psicodélica preferida. Pedirá, ainda, uma xícara de café descafeinado e desatará a falar sobre como eu preciso limpar a minha casa, pagar o aluguel, e será que vai chover?.

Rotina é assim, pomposa e cheia de toques sérios e pedantes, mesmo. Ela até tenta ser simpática, mas não sabe conversar sobre nada que não seja prático, sério ou sem sal. E esse terno que ela insiste em usar, cirurgicamente bem passado e com essa cor anêmica de areia molhada, sinceramente, para quê? A quem ela quer impressionar? Se é a mim, ela deveria tentar outra coisa. Sim, é isso. Outra coisa. Talvez, se eu a convencesse a vestir algo mais colorido e menos alinhado, quem sabe...

Quem sabe.

...

Preciso de uma taça de aventura caleidoscópica ainda fumegante.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Porção de aleatoriedade nonsense travestida de tinta e de verbo da noite:



As bolhas de sabão guardam consigo
os fragmentos esféricos dos arco-íris
ofuscados pelo deus-rei Sol.

(As histórias que as mil cores contam, porém,
estão codificadas em hieroglifos gravados a ouro
na concha daquele velho e enfadonho caracol.)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Véu de Verão


Chove.
O Sol apaga-se e deixa o Dia travestir-se de Noite.
Cintila, ora aqui ora lá, ao som de estrondosos tambores, como mil vaga-lumes festejando o verão.
As nuvens pesadas de luto permitem-se, então, alegrar-se e choram uma fina cortina translúcida por atrás da qual o mundo pode ousar ser outro.
Um sarau desfocado de cores pastéis tem início -
do lado de lá do véu, Morfeu é o rei.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Escrita corrida: Pensar.



Madrugada adentro, os pensamentos surgem.

Aparecem tímidos por entre as cortinas de veludo dos sonhos.

Estão nus, quase inconscientes.

Vestem-se, pois, com os mantos coloridos das palavras: tornam-se, eles, elas próprias.

Existem uma existência recortada, costurada a esmo com a frágil linha das letras e a agulha fina dos parágrafos.

São nada menos que uma colcha de retalhos: fragmentos únicos amarrados em uma imensa e colorida colcha de retalhos.

E, lá, neste pano recém-formado, transformam-se num todo.

Existem, então, como unidade - ainda que artificial.

São todos um só.

Riem, choram, surpreendem-se - nem se lembram, agora, de suas existências inconscientes e individuais.

(E são felizes por isso.)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Noite: o espetáculo.



As estrelas estrelam no céu, a Lua sorri.
O espetáculo de panos escuros e movimentos imperceptíveis tem início:
O sorriso perdido da noite, o lustro do lusco-fusco do anoitecer...
Os astros saúdam saúde, saudade.
Piscam marotos e migram:
O quê?, pensa a humanidade.

...

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Ser, ter.

Ter é bem melhor do que ser?
Ser é bem melhor do que ter.
Ser o quê, ter o quê?
Ter que ser, ser o que ter, ter o que ser, ser quem ter.
O ser que quer ter para parecer ser.
Para parecer? Para aparecer!
Simples ser, por ser.
Só ser, sem ter que ter ou ser, simples ser.
Ter o ser.
Ou ser.

...

(E que diabos estou tendo dizer?)

terça-feira, 23 de julho de 2013

Pessoas-padrão


Criança, o mundo inteiro pela frente.
Ideias, cores, luzes.
Descobrimentos, aprendizados.
Interesses.
Tudo o que pode ser e pode ser:
Criações.

Adolescente, a rebeldia toma forma.
Ideais, cores, sombras.
Descobrimentos, aprendizados.
Ideologias.
Tudo o que pode ser e pode mudar:
Provocações.

Adulto, a rotina reclama sua vez.
Metais, cinzas, contas.
Cobranças, propagandas.
Raízes.
Tudo o que tem que ser e tem que ser:
Aceitações.

Velho, o cansaço toma conta.
Sais, cinzas, remédios.
Lembranças, propagandas.
Desinteresses.
Tudo o que podia ser e que não foi:
Assombrações.

...

(É sempre bom se perguntar se a criança que você foi um dia gostaria de ser o adulto no qual você se tornou.)

terça-feira, 14 de maio de 2013

Brahduhauh POidoiaahrj GGGadj.

Queria escrever, mas não consigo.
Preciso de pílulas concentradas de palavrinhas bem amarradas.

NÃO ENTRE EM PÂNICO!

O que importa é que o arco-íris caleidoscópico está chegando para nos levar de volta. Não se esqueçam de suas bagagens de mão - porque louco é aquele que se considera são.

OU NÃO.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Era uma vez #10

Era uma vez uma vez que era.
Era, até que uma vez não foi.
E foi.
Fim.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Apatia


Acordou aquele dia como sempre acordava, bebeu seu café preto como sempre bebia, comeu duas torradas como sempre comia.

Entristeceu-se por nada, como sempre acontecia.

Vestiu-se pro trabalho como sempre se vestia, caminhou pela rua como sempre caminhava, conversou com seu vizinho como sempre conversava.

Imaginou-se em outro mundo, como sempre imaginava.

Chegou ao escritório como sempre chegava, sorriu para os colegas como sempre sorria, fez o seu serviço como sempre fazia.

Sentiu-se miserável, como sempre se sentia.

Saiu às seis da tarde como sempre saía, jantou no Japonês como sempre jantava, chegou em casa às oito como sempre chegava.

Pensou em se matar, como sempre pensava.

Tomou os seus remédios como sempre tomava, bebeu goles de uísque como sempre bebia, distraiu-se com a tevê como sempre se distraía.

Morreu aquela noite, como sempre morria.

(E, nos dias seguintes, tudo se repetia.)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Escrita aleatória ligeiramente (?) psicodélica


Estrela. Guimba. Poente. Jacaré. Dândi. Caudaloso. Filho.

DROMEDÁRIOS!

Castelos de cera derretendo-se em pequenos cubos de açúcar cristalizado são quase, mas não exatamente, completamente diferentes de uma xícara de feijão com arroz, bife e batatas-fritas.

Os sapatos vermelhos da senhora de frigideira na cabeça não podem levá-la a lugar algum: nenhum deles sabe qualquer canção instrumental cantada pelos Rolling Stones.

A margarida esqueceu-se de que um dia foi rainha e de que tinha uma bergamota de estimação - mas os buracos-caleidoscópicos que se abriram em Galápagos nada tinham a ouvir com isso.

ORNITORRINCOS!

Mamão. Jaguatirica. Sílfides. Chorumelas. Taumaturgo. Polvo. Milho.

(E o que diabos carregando cargas d'água a joaninha amarela de óculos espelhados queria me dizer?)

...

Quarentaedois.

terça-feira, 5 de março de 2013

Esperando o ônibus

Esperando o ônibus, Cecília acendeu um cigarro. Sabia que não devia, que custava caro, que o benefício era nenhum. Mas, ainda assim, acendeu-o e tragou-o profundamente, mentindo para si mesma que seria o único.

Cecília esperava o ônibus como esperava a vida.

Não que não fizesse planos, ah!, como os fazia. Se fizesse uma lista de todos os objetivos que já tivera na vida seria preciso que uma floresta inteira fosse feita papel para abrigar seus sonhos em tinta. Planejara viajar, estudar culturas exóticas, conhecer outras civilizações, escrever um livro, ser atriz, tocar piano, ser professora, falar russo, aprender física quântica, plantar uma árvore e até casar-se e ter um filho. Planejara tantos caminhos, tantas promessas, tantos sonhos!

Mas era muito fácil imaginar. Sempre tivera uma imaginação fora do comum. Gostava de criar mundos fantásticos e realidades alternativas para passar o tempo. No plano das ideias tudo era sempre tão colorido, mágico, bonito! Bastava colocar os pensamentos em prática, porém, para que o ímpeto inicial se desvanecesse em uma nuvem cinzenta de cotidiano-sempre-igual-a-sempre e os outrora tão interessantes planos virassem apenas divagações. Nestas horas, a Rotina, aquela séria e sóbria senhora muito metódica e muito virginiana, instalava-se imediatamente em sua vida, descolorindo por completo o seu caleidoscópio de intenções.

E então esperava pacientemente pelo próximo final de semana, pelo próximo semestre, pelo próximo ano. Esperava desinteressada pela próxima chance de provar a si mesma que as coisas poderiam ser diferentes. Ou menos desinteressantes.

Ali, naquele ponto de ônibus, fumando seu primeiro cigarro do dia, percebeu que estava, de fato, farta de esperar. Cansara-se de viver apenas de sonhos. A partir daquele dia, daria uma grande reviravolta em sua vida! Colocaria em prática seus planos, desta vez. Estava decidia. Só precisava, agora, estabelecer qual deles seria o primeiro.

Quem sabe aquela viagem que sempre sonhara em fazer? Sim, essa ideia seria muito boa para ser colocada em prática em primeiro lugar. Mas, para isso, seria necessário ter algum dinheiro. Não sabia se o que possuía era o suficiente. Então, que tal trabalhar em alguma coisa extra para juntar esse dinheiro? Era muito boa cozinheira, poderia, sim, fazer alguns quitutes e vender no intervalo das aulas da faculdade. Mas para isso, também, ela precisaria dispor de algum tempo para poder cozinhar. E tempo era algo que estava cada vez mais escasso, especialmente depois de ter aceitado aquele estágio no escritório, alguns meses atrás. Estágio este, aliás, do qual já estava terrivelmente cansada.

"Vou largar essa bosta de emprego, então" pensou. "Aí terei bastante tempo para me dedicar aos meus bolinhos."

Sim, mas aí não teria mais o salário com o qual se acostumara e, consequentemente, vender bolinhos não seria mais uma fonte extra de renda, mas sua única fonte de renda. E então não poderia viajar. E então...

E então o cigarro apagou, o ônibus chegou e seus projetos foram, mais uma vez, devidamente guardados na gaveta empoeirada da vida cotidiana.

...

(Cecília continua esperando o ônibus da vida até hoje.)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Era uma vez #9

Era uma vez uma casinha feita de doces.
Um dia a Magali veio e comeu-a.
Fim.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Poemeto sobre minha visita a uma maravilha da humanidade

Uma longa caminhada.
Os passos cansados,
A respiração pesada,
Os pés inchados.

Uma chuva inesperada.
A falta de ar,
As roupas molhadas,
O frio de arrepiar.

A chegada ao topo,
A névoa que se esvaiu.
Um suspiro rouco:
Machu Picchu, PUTAQUEOPARIU!


Machu-Picchu


ATENÇÃO:
O Ministério Da Normalidade Adverte: Viajar causa dependência física e psicológica.

ATENÇÃO:
O Ministério Da Satisfação Adverte: Vicie-se!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O Gato No Telhado

(A pequena eu-mesma de doze anos escreveu este texto em algum dia de verão dos idos anos 2000, em Águas de São Pedro. Encontrei-o abrindo aleatoriamente algumas gavetas velhas de lembranças nostálgicas e ele grudou no meu cérebro implorando para ser compartilhado.)


Era um gato gordo, feio e esquisitão.
Mas também era amigo e muito brincalhão.

Seu nome era Malhado
E vivia no telhado
Sempre que chovia ficava todo molhado

Gostava de sair pelo salão
Sempre arranjando confusão.
Até que um dia, então,
Escorregou e caiu no chão.

Ficou todo envergonhado,
Com o cabelo embraçado,
Até mesmo engraçado!

Todo mundo riu
E o gato se sacudiu
Deu as costas pra platéia
E foi ver a Tetéia

Tetéia, sua amiga,
Era muito esquisita.
Comia ratos no telhado
Achando que era grelhado.

Mas tudo bem!
Os dois eram nota cem!

Eram, não,
Ainda são!

E continuam sempre arranjando confusão.

...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Greve de Palavras

Eu só quero poder escrever!

Quero beber da fonte das palavras irreais.
Quero rasgar as amarras literatais e não literais.
Quero amarrar minhas ideias em frases teatrais.

Tenho muitos personagens esperando pra viver!

...

Existem coisas que a Inspiração não compra. Para todas as outras existe uma Vontade de Escrever.





(Em Tempo: Rotina, sua egoísta, libere minhas palavrinhas!)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Comunicado: Férias

Os Duendes Espaciais Ordenhadores Das Vacas Sagradas Da Via-Láctea vêm por meio desta notificar que a autora dos textos disso que vossas senhorias terráqueas conhecem por blog acaba de voltar para terras tupiniquins após passar por várias aventuras em outros ambientes latino-americanos.

Assim que Caranguejo Excêntrico conseguir reacostumar-se com o insosso Cotidiano e recuperar-se das bolhas nos pés, demais atualizações ocorrerão.

Fiquem em paz.

Atenciosamente,

Abelardo Policrômico Neves
(Duende Espacial Ordenhador das Vacas Sagradas da Via-Láctea, Ordem 7, N° 1248856)