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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Pequena Dose De Surrealismo Do Dia


Um muro de tijolos pintados de verde, uma porta vermelha.

Um elefante marinho de cartola bebendo Martini. Ele levanta os olhos lacrimejantes e diz:
“Não se aflija, o glacê do bolo ainda não virou borboleta”

Estrelas caem do céu, uma delas atinge a cabeça de um anão careca. Ele abre resmungando seu guarda-chuva cor-de-abóbora e vai embora voando.

Um buraco se abre no piso xadrez e vomita um urubu de bigodes que comenta algo sobre cacatuas atletas olímpicas e se dissolve em mil cavalos-marinhos alados.

Um barqueiro em traje de gala sobe o rio de chocolate em um submarino amarelo. De repente girassóis gigantes brotam de seu chapéu de caubói e ele submerge no rio.

Um unicórnio com três chifres galopa em um campo de morangos enquanto cogumelos fosforescentes dançam frevo.

Um corvo grita “nevermore” entre relógios derretidos e José dança um tango argentino.

Caravelas despontam no horizonte, suas velas são púrpuras. Atiram com seus canhões tortas de maçã carameladas e os ratos fantasiados de esquilos festejam.

Uma placa surge com os dizeres “Mif. Arobme av, agehc.”

“And you’re gone”.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Brahduhauh POidoiaahrj GGGadj.

Queria escrever, mas não consigo.
Preciso de pílulas concentradas de palavrinhas bem amarradas.

NÃO ENTRE EM PÂNICO!

O que importa é que o arco-íris caleidoscópico está chegando para nos levar de volta. Não se esqueçam de suas bagagens de mão - porque louco é aquele que se considera são.

OU NÃO.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Escrita aleatória ligeiramente (?) psicodélica


Estrela. Guimba. Poente. Jacaré. Dândi. Caudaloso. Filho.

DROMEDÁRIOS!

Castelos de cera derretendo-se em pequenos cubos de açúcar cristalizado são quase, mas não exatamente, completamente diferentes de uma xícara de feijão com arroz, bife e batatas-fritas.

Os sapatos vermelhos da senhora de frigideira na cabeça não podem levá-la a lugar algum: nenhum deles sabe qualquer canção instrumental cantada pelos Rolling Stones.

A margarida esqueceu-se de que um dia foi rainha e de que tinha uma bergamota de estimação - mas os buracos-caleidoscópicos que se abriram em Galápagos nada tinham a ouvir com isso.

ORNITORRINCOS!

Mamão. Jaguatirica. Sílfides. Chorumelas. Taumaturgo. Polvo. Milho.

(E o que diabos carregando cargas d'água a joaninha amarela de óculos espelhados queria me dizer?)

...

Quarentaedois.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Passatempo

É de manhã, faz um lindo Sol lá fora e você encontra-se trancado em um cubículo branco e cinza de frente para um computador.

Deveria estar trabalhando, criando, desenvolvendo qualquer coisa (in)útil para o ainda mais (in)útil mercado de trabalho.

Mas está com preguiça.

Toda a sua capacidade cognitiva está descansando tranquilamente recostada em cadeiras de praia à beira-mar e tomando drinques refrescantes adornados com guarda-chuvinhas coloridos.

E você só poderá juntar-se a ela quando o relógio finalmente marcar seis horas da tarde.

Ainda são onze horas da manhã.

Pois bem.

Como o que não há remédio remediado está, creio que o melhor a se fazer é, então, escrever para passar o tempo.

Sim, isso pode ser algo interessante.

Vamos lá: ferro de passar roupa, tomada, eletricidade, água, tábua.

Tempo se passa com vinco? Ou sem vinco?

Droga, minha mãe sempre me disse que eu precisava aprender a passar roupa, não o tempo.

Uma borrifada d'água aqui, uma dobradinha ali; não deve ser assim tão difícil, afinal.

Só é preciso muito cuidado para não queimar, realmente. Tempo queimado cheira mal, causa estresse e bolhas nos pés.

Lá lá lá, e, voilá!, um tempinho passadinho rapidinho!

...

Certo. E que faço eu agora com todo esse tempo que ainda está por passar?

Tenho a impressão de que ele ficaria muitíssimo melhor passado se eu estivesse fazendo qualquer outra coisa que não isto que deveria estar fazendo.

Sim, de fato.

Sinta o gosto dele, realmente está muito mal-passado, você não acha? Está mesmo quase cru, eu diria; veja só todo esse sangue que ainda escorre.

E nem adianta colocá-lo um pouco mais no fogo, tempo mal passado é imutável, permanece assim para toda a eternidade, feito cinza de lembrança.

Para que o tempo fique bem passado é necessário que assim seja desde o início, como você bem deve saber.

Desde o início.

E o quê diabos seria o início?

Bem, imagino que o início do tempo relativo seja relativo, enquanto o início do tempo absoluto é absoluto.

Agora, o que de fato seria tempo, relativo, absoluto e, conseqüentemente, o início, "decifra-me ou te devoro", a resposta para todas as perguntas não passa de um pedaço de queijo suíço com quarenta e dois buracos de diferentes tamanhos. E tamancos brancos. Francos. Aos prantos.

...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Tique-taques


Tiquetaque-tiquetaque-tiquetaque.

Tiquetaqueamos
Tiquetaqueando
Tique-taques
Que tiquetaqueiam.

Tiquetaqueemos, pois.

Tique.
Taque.
Tiquetaque.
Tiquetaque-tiquetaque-tiquetaque.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Uma Conversa Qualquer Comigo Mesma


- Oi.

- E aí?

- Faz tempo que a gente não conversa, né?

- É. Culpa sua. Eu estou sempre por aqui.

- Eu sei. Eu é que muitas vezes não estou.

- Está, sim. Só não percebe. Hoje, você percebeu.

- Percebi. E demais. O grito ainda me está sufocado na garganta.

- É melhor não deixá-lo sair.

- É um sentir como se sentisse todas as coisas do mundo, sabe? Como se por alguns instantes eu me visse amarrada ao Vórtex da Percepção Profunda e à noção do infinito, da verdade absoluta e de toda a minha insignificância diante disso tudo me fosse revelada.

- Sua carta é a da Lua. Sua função é sentir.

- Mas também é pensar.

- É pensar no sentir e sentir no pensar. Daí a originalidade. Daí a contradição.

- Mas eu não quero mais jogar esse jogo de oposições . É dolorido. É trabalhoso. É inútil! Até que ponto isso tudo o que racionalizo sentindo e sinto racionalizando não passa da minha imaginação? Você é apenas a minha imaginação. O que disso tudo seria real, então? O que não seria? O que seria, de fato, o real, se não mera percepção individual ou pura alucinação coletiva?

- Você realmente acha que esses pensamentos vão te levar a alguma conclusão?

- Não, não vão! Mas o que posso fazer, se sinto e penso e sinto o que penso e penso no que sinto dessa forma tão ridiculamente adolescente e ultra-romântica?

- O melhor, por ora, é seguir o fluxo do rio e procurar não se enroscar nas raízes à margem.

- Isso é tudo o que tem pra me dizer?

- O que você acha?

- Desanimador. Esperava mais de você.

- Você faz esse discurso dramático todo como se não sentisse, lá no fundo, um júbilo melancólico e doce, agudo e doentio, enquanto mergulha neste turbilhão de emoções e racionalizações.

- Ah, puxa. Você sabe como me convencer.

- Conheço-lhe melhor do que você mesma.

- Sendo meu subconsciente, eu não esperava menos.

- Desta forma, que tal uma bela bebedeira?

...

:P

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Sobre Uma Lâmpada Elétrica Particularmente Irritante


Aquela lâmpada elétrica tá olhando pra mim.
Tá, sim. Eu tô vendo. Você não tá? Olha lá!!

Tá toda contentinha, se achando a última bolacha do pacote só porque é elétrica e brilha.
E daí que você brilha, minha filha? O que diabos eu tenho a ver com isso?
Pára de ficar me olhando, porra!
Eu não fiz nada pra você. Não tenho nem ondas elétricas que viram luz passando por mim!
Pára!

Ahh, ó lá, tá apagando!
Ééé, quem é que era a toda-poderosa, mesmo, heim?
Uhh, a lâmpadazinha elétrica já não é mais tão elétrica assim, veja só.


Apagou, mesmo.
Agora acendeu.
Apagou de novo.
Acendeu.
Apagou.
Acendeu.
Apagou.
Acendeu.

Porra, lâmpada, pirou de vez, foi?
Tá achando que é pisca-pisca de Natal?

Pisca...
Pisca...
Pisca...
Pisca...

Epa.
Por quê você tá piscando pra mim desse jeito?
Pára de piscar pra mim, porra!
Tá achando que vai dominar o mundo, enlouquecendo os humanos com esse acende-apaga-acende?
Pára, eu tô mandando!
PÁRA!

*CRASH*

Obrigada.

...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Rato Verde Com Asas (ou Uma História Nonsense Para Passar O Tempo)

"Rato Verde Com Asas Por Ele Mesmo"
Técnica: Mouse Ruim Sobre PaintBrush
Julho de 2012 - Rato Verde Com Asas

Era uma vez um Rato Verde Com Asas.

Um dia, estava o Rato Verde Com Asas voando alegremente pelo campo de girassóis – sim, ratos verdes com asas adoram voar alegremente por campos de girassóis – quando uma Cobra Cor-de-Rosa Com Óculos Escuros surgiu de um buraco no chão e o abocanhou – é, isso; cobras cor-de-rosa com óculos escuros adoram surgir de buracos no chão e abocanhar ratos verdes com asas que voam alegremente por campos de girassóis.

Depois disso, o céu se fechou num maremoto e o Grande Provedor Das Terras Girassoleianas surgiu com seu cajado de pirulito vermelho com listras brancas que é típico do Natal e convidou os seus protegidos girassóis para dançarem Salsa.

Todos os girassóis agradeceram o convite do Grande Provedor Das Terras Girassoleianas e puseram-se a dançar freneticamente; era uma honra para eles dançar salsa com tão ilustre figura.

Nada poderia estragar aquele momento tão lindo e tão particular aos girassóis, a não ser que esta fosse a história do Rato Verde Com Asas e não a dos Girassóis Que Dançam Salsa Com Seu Grande Provedor.

Como é justamente este o presente caso, os Girassóis Dançarinos De Salsa e seu Grande Provedor foram expulsos desta história por furto de papel principal e precisaram arrastar-se pelas sarjetas do universo literário pedindo esmolas em busca de uma nova história barata na qual pudessem se enfiar.

Restituído, desta forma, de seu antigo cargo de Protagonista De História Ruim E Nonsense, o Rato Verde Com Asas pôde continuar tranquilamente a ser quase digerido pela Cobra Cor-de-Rosa Com Óculos Escuros sem maiores interrupções.

E lá estava nosso pobre herói Rato Verde Com Asas quase sendo digerido pela Cobra Cor-de-Rosa Com Óculos Escuros quando, subitamente, ouviu-se um estrondo de trovão e um Camelo Púrpura Que Mascava Chicletes caiu do céu.

Com tamanho sobressalto, a Cobra Cor-de-Rosa Com Óculos Escuros engasgou-se e teve um terrível acesso de tosse, durante o qual o fabuloso Rato Verde Com Asas aproveitou para bater com força suas asas de rato verde e voar de dentro da barriga cor-de-rosa da cobra de óculos escuros o mais rápido possível.

Em sua afobação para sair da goela da Cobra Cor-De-Rosa Com Óculos Escuros, porém, nosso atrapalhado Rato Verde Com Asas voou direto para a corcova do Camelo Púrpura Que Mascava Chicletes, atingindo-a em cheio com um baque surdo.

E foi então que tudo aconteceu.

A corcova do Camelo Púrpura Que Mascava Chicletes era, na verdade, o botão de acionamento de uma bomba relógio poderosíssima enviada pelo Povo Inimigo Mortal Dos Girassóis Dançarinos De Salsa do planeta Sênmsens Suallgûmm para acabar com o campo de Girassóis Dançarinos De Salsa.

Acontece que, como você deve se lembrar, ou não, os Girassóis Dançarinos De Salsa já haviam sido expulsos desta história nonsense um pouco mais cedo, fazendo com que o Camelo Púrpura Que Mascava Chicletes E Na Verdade Era Uma Bomba Relógio, um tanto quanto desapontado, seguisse seu rumo pedindo desculpas à Cobra Cor-de-Rosa Com Óculos Escuros e ao Rato Verde Com Asas por interromper seja lá o que eles estivessem fazendo e fosse explodir sozinho e melancólico num campo de nabos saltitantes.

Depois de toda esta situação complexa e absurda propiciada pelo Camelo Púrpura Que Mascava Chicletes E Na Verdade Era Uma Bomba Relógio, O Rato Verde Com Asas acabou se tornando, contra todas as expectativas e apenas para deixar esta história ainda mais nonsense, um grande amigo da Cobra Cor-de-Rosa Com Óculos Escuros.


E os dois, desde então, jogam truco e bebem cerveja todas as quintas-feiras em companhia das Cinzas Chamuscadas Do Camelo Púrpura Que Mascava Chicletes E Um Dia Foi Uma Bomba Relógio e do Grande Provedor Dos Campos Girassoleianos - que, na verdade, não era provedor de girassol coisa nenhuma e estava só fazendo um bico nesta história para pagar a conta de luz atrasada do mês passado.

Fim.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Considerações #2

Observatório Astronômico de Manksaoosin.
Desenhado por Caranguejo Excêntrico durante
alguma aula ruim em setembro de 2009.


Tempo, tempo, tempo.
A lua, fria, brilha branca no céu estrelado e friorento que reflete todo o passado do universo.
Tempo, tempo, tempo.
Os beija-flores senhores das eras esqueceram-se de acertar seus relógios para o horário de verão.
Tempo, tempo, tempo.
Que diabos estou tentando dizer?

...


Você já parou para pensar que tudo o que viveu pode ter sido apenas o sonho alucinado de uma velhinha em coma?
Já parou para refletir que todo o seu passado pode ser simplesmente uma projeção da sua mente perturbada para explicar a discrepância entre as suas sensações físicas imediatas e seu estado de espírito?
Já parou para meditar que um sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas um sonho que se sonha junto é a realidade?

...

E, para aqueles que se julgam sábios, a minha mais pura compaixão.
Ou não.
A felicidade é a mais completa forma de dominação.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Viagem Psicodélica Pós Quase Término Dos Trabalhos Finais

Escrevi esta história durante um surto de fim de semestre no primeiro ano de faculdade. Como estou passando por algo parecido esta semana e estou totalmente sem tempo de escrever qualquer coisa que não seja a forma de representação de mundo dos telejornais e a crítica modernista no século dezenove, publico-o aqui para apreciação geral da nação.

Aviso: Melhor visualizado sob o efeito de psico-ativos.

***

Estava eu dançando em um grande salão iluminado por fachos de luzes multicoloridas uma dança psicodélica ao som de Pink Floyd tocado por uma vitrola imaginária controlada por uma joaninha de óculos escuros cor-de-laranja.

- Quem pensou que tinha sentado no nabo no trabalho de Brasil Colonial?! – disse para mim mesma, dando um rodopio - Já é! Já é! Ninguém virou jantar, uh-uh! Ninguém virou jantar, uh-uh!

Saltei um duplo twist carpado e imitei uma dançarina de Hula-Hula.

- Hohohoho... PASSEIIII... sete no trabalho, oito na prova... uoooohhh! – gargalhei, andando como egípcia e balançado a cabeça loucamente - Sim, agora só falta saber como fui nas outras...

A música diminuiu.

- E terminar (ou começar) o trabalho de Ibérica...

A música cessou por completo.

- Que, aliás, é pra amanhã!

Estaquei no meio da sala e as luzes coloridas se apagaram, dando lugar a um irritante holofote com uma irritante luminosidade cujo irritante facho estava de uma forma particularmente irritante apontado para mim.

- AAAAAAAHHHHHHHHHHHH!!!!! – não pude deixar de gritar, quando a joaninha de óculos escuros cor-de-laranja aumentou de tamanho e virou um enorme e terrível Gil Vicente com dedo em riste e expressão acusadora.

Tentei fugir, mas o chão abaixo de mim começou a dissolver-se e sugar-me feito areia movediça. Berrei outra vez, desesperada, arrancando os cabelos em uma busca frenética e vã de sair dali.

- A sociedade portuguesa desse período de monarquia absoluta – disse o monstruoso rosto de Gil Vicente no mesmo instante em que começava a ficar loiro e parecer-se com o Lenine - aparece com as viagens de descobrimento e a fixação do além-mar e termina, em boa parte, no final do século XVIII e com as revoluções liberais do começo do século XIX.

- AAAAAAAAARRRRRRRRRRRRRRRRRREEEEEEEEEEEEE!!!!!!!!!!!!!!

O chão de areia-movediça estava me puxando cada vez mais para baixo, eu estava quase sufocada. Foi quando uma lagarta bigoduda veio navegando numa nau portuguesa do século XVI e parou ao meu lado.

- A senhora por acaso precisaria de ajuda? – perguntou-me do alto de seus bigodes pretos.

- Ah, não, não; imagina! Estou onde todo mundo sempre quis estar, não é?, sendo sugada por um chão de areia movediça! Quero dizer, é o sonho de todo mundo!

- Bem, para falar a verdade eu nunca sonhei com isso – ela me respondeu com uma sobrancelha erguida – Eu sempre sonhei que virava uma borboleta barbada e podia acampar no deserto do Atacama.

- É mesmo? Que interessante!

- Pois é. No Atacama, imagina! Bom, mas se você não está com problemas, vou perguntar pra outra pessoa. Desculpe incomodar.

- !!!

- Ah, e quase ia me esquecendo... – ela disse de novo retirando alguma coisa muito grande e muito pesada de dentro do seu bigode – Só pra garantir...

**POF!**

Sim, para os que não entenderam, ela bateu na minha cabeça com aquela coisa muito grande e muito pesada.

E sim, eu, obviamente, desmaiei.

Acordei o que me pareceram horas depois, com uma terrível dor de cabeça e em um lugar absurdamente surreal.

Estava deitada em um pufe macio e amarelo, feito com algum tecido esquisito que parecia ser composto de vários trapos de toalha esfiapados e muito usados.

Uma luz dourada iluminava um salão terrivelmente colorido, onde vários discos de vinil planavam felizes e esborrachavam-se uns nos outros.

No teto abobadado, pinturas renascentistas de anjos acenavam e piscavam os olhos para mim enquanto diabinhos fluorescentes espetavam-lhes as costas.

Tocava Beatles.

Levantei-me perguntando onde diabos estaria, e no mesmo instante um disco de vinil particularmente feliz deu um rasante muito próximo a mim, fazendo-me mergulhar de cara no chão.

Fechei os olhos, pressentindo a colisão com o frio piso de pedra cintilante que piscava a intervalos totalmente irregulares, mas a colisão não aconteceu.

Continuei de olhos fechados.

Já estava ficando de saco cheio dessa história surrealista, parecia uma viagem ácida, e eu estava totalmente sóbria!

Ok, estava um pouco fora de mim com a paranóia do trabalho que precisava terminar até a tarde seguinte, mas isso não poderia ser a causa de discos de vinil voadores, uma lagarta bigoduda e Gil Vicente virando minha professora de Ibérica.

E aquela dor de cabeça era muito, muito real!

Ora, pipocas! Eu precisava descobrir onde estava! Precisava sair dali! Precisava terminar o trabalho! Precisava ganhar na loteria! Precisava viajar o mundo inteiro! Precisava conhecer o Johnny Depp pessoalmente! Precisava... abrir os olhos, diabos!

Relutantemente, os abri.

O mundo (ou o que parecia ser uma cópia muito bizarra dele) dissolveu-se na minha frente, um tipo de escritório de redação de jornaleco se materializou e a lagarta bigoduda que me deu uma marretada na cabeça surgiu de trás de um ficheiro velho e mofado.

- Ora, a mocinha acordou! - disse ela - Tudo bem?

- Não.

- Que bom! – ela abriu um sorriso radiante, e em seguida franziu as sobrancelhas - Desculpa ter te tirado do seu sonho de areia movediça, mas, sabe como é, eu só trabalho aqui.

- ...

- Meu chefe já tá vindo aí, aí você fala com ele pessoalmente, tá?

- ...

- Por quê você não senta? - disse, apontando uma cadeira de praia de listras brancas e vermelhas e servindo-me uma bandeja com copinhos coloridos enfeitados com mini guarda-chuvas - Tome um suco, também.

Aceitei o suco. Estava ficando impaciente, a última vez que saí para uma viagem tão surreal quanto aquela as coisas não se sucederam de maneira muito agradável pra mim, no final das contas.

Ouvi então um barulho estrondoso de galope de cavalos, e o que me pareceram trombetas angelicais soaram.

- Oooooooláááááááá - disse uma coisa muito luminosa que entrou pomposamente no escritório, com uma voz em trovão.

- Ei chefe! Ela acordou! - disse a lagarta bigoduda.

A luz se apagou, revelando uma figura muito gorda trajando paletó e chapéu de mafioso.

- Ah, sério?! - disse o gordo de chapéu - Não me diga! Ora, pois me diga alguma coisa mais útil da próxima vez!

- Desculpa, desculpa, chefinho!

- Tá, tá. - a figura enorme voltou-se para mim - Desculpe, Karol. Ele estragou minha entrada triunfal, eu tinha até comprado um holofote pra fazer bonito, mas... enfim, não importa. Essa mosca do cocô do cavalo do bandido do filme de caubói americano contou-lhe o porquê de estar aqui?

- Ah... não... - respondi, meio desnorteada. Primeiro personagem maluco que eu encontrava e realmente sabia meu nome! - Como você...

- Ora, obviamente eu sei o seu nome! Você não sabe o seu nome? Eu posso dizê-lo para você, você se chama Ana Carolina, mas é mais conhecida como Kar...

- Eu sei o meu nome, obrigada.

- Então não há com o que se preocupar! Pois bem, então. Já que esse estrupício não lhe contou, terei eu mesmo que fazer o trabalho sujo.

A figura empinou o peito e pareceu ficar ainda mais enorme.

- Você está aqui exatamente pelo fato de estar aqui. Se você não estivesse aqui, não estaria, concorda?

Puxa, que grande revelação! Como não pensei nesse motivo antes?

- E o fato de você estar aqui - continuou pomposamente - significa que você não bate bem das idéias e precisa de um descanso.

Outra grande revelação. Francamente, eu ainda tinha que terminar o meu trabalho!

- Sim, sim, ok - falei - Mas acontece, enorme figura de paletó e chapéu de mafioso, que eu realmente preciso ir embora, certo? Tenho um trabalho para terminar e...

- Ora, justamente! Eu tenho a solução para isso! E você sabe que eu tenho, por isso veio até aqui.

- Na verdade eu vim porque aquela lagarta me deu uma cacetada e me trouxe para cá.

- Eu só trabalho aqui! - gritou a lagarta de trás de uma árvore de Natal.

- De qualquer forma, eu tenho a solução para seu trabalho - o cara gordo de chapéu de mafioso abriu uma gaveta verde-musgo de uma escrivaninha sorridente e tirou de dentro dela um frasco multicolorido e fumegante - Beba.

Ah, claro. Iria beber aquilo, sim. Com certeza.

- Obrigada, não estou com...

- É uma mistura mágica de ervas e absinto com aroma de limão, não há com o que se preocupar.

- Ah... então... você disse absinto?

Bem, aquilo não podia ser tão ruim, não é? Bebi.

Em seguida a lagarta bigoduda voou na minha direção e ficou pequenininha, entrando pelo meu ouvido.

As imagens ao meu redor começaram a parecer que eram feitas de vidro, vidro este que se estilhaçou em mil pedaços e derreteu em mil cores até tudo ficar branco, ofuscantemente branco.

Enquanto isso, pensamentos que nunca me ocorreram antes brincavam de ciranda-cirandinha em meu cérebro.

Tive um relance do sentido do Universo, foi-me visível a única forma de se acabar de vez com a fome e a desigualdade do mundo, pude compreender como funcionam as religiões e seus deuses, descobri o que era Deus, soube que o mundo ia acabar e que existe vida em outros planetas, pude perceber o quão ínfimo é o ser humano, quantos atos grandiosos foram vãos, como eu não sou nada e como o nada é tudo e o tudo é grande demais pra ser apreendido.

Todas as revelações possíveis me foram feitas, e eu senti que não poderia agüentar, que meus miolos estavam prestes a sublimarem em minha cabeça.

A lagarta bigoduda apareceu girando em espirais na minha frente, dizendo com voz fantasmagórica:

- Escolha... esqueça... escolha... esqueça...

Precisei ser rápida e forçar minha mente a esquecer toda a essência do que estava sendo revelado. Só podia manter comigo...

Uma luz piscou, eu fui jogada por uma janela e estava em meu quarto, sentada na frente do computador, com brilhantes (ou nem tanto assim) idéias para serem escritas em meu ensaio sobre Gil Vicente e a sociedade portuguesa em sua obra.

...

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Considerações #1

(Ouvindo o álbum Piper at the Gates of Dawn do Pink Floyd)

Os magos coloridos presos em castelos de cartas meio desmoronados não podem fazer absolutamente nada por você, lembre-se disso.
A menos que um deles possua como animal de estimação um gato siamês de nome Lucifer Sam.
Aí, sim, as coisas podem ser ridiculamente diferentes.

...

Se você, por acaso, conhecer um gnomo barbado vestindo uma túnica vermelha e um capuz azul e verde que atenda pelo nome de Grimble Crumble, ofereça-lhe imediatamente uma taça de vinho bom.
Se você não o conhecer, bem, beba você mesmo a tal taça de vinho.

...

A questão é: não há questão.
Bem, talvez até haja, na verdade, uma questão; mas tal questão tornou-se de tal maneira tão inquestionável que hoje em dia ninguém mais se questiona se aquela não-questão não seria, em realidade, uma questão-questão.
Ou não.

...

Estranho é tentar explicar o que não tem explicação; loucos são aqueles que se consideram sãos.

...

42.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Sobre Quando Conheci Os Seres De gravatas Púrpuras

(Aqueles que me conhecem há mais tempo já ouviram esta história. Publico-a aqui, reciclada e reescrita, porque... bem, e porque não? :P)
...

Certa noite fui abduzida por alienígenas. 


Lá estava eu, calmamente fumando um cigarro em minha varanda quando notei algumas luzes piscando ao longe no enevoado céu de São Paulo. Logo pensei ser um relâmpago, mas, bem, relâmpagos são brancos, não púrpuro-berrantes. Talvez fosse um avião. Mas aviões também não tem essa cor. Ou tem?

— Huuuum! — pensei, sorrindo — Quem sabe é uma nave espacial! Seria divertido conversar com uns alienígenas, assim, pra variar... olha, se vocês quiserem vir aqui trocar uma ideia comigo podem vir, viu, eu...  — continuei, em voz alta, fazendo uma piada comigo mesma.

Alguns segundos depois, parada em pleno ar na frente da varanda do meu apartamento, havia uma pequena nave verde-limão em formato de ovo, com faróis de cor púrpura berrante e uma pequena janelinha de vidro de onde algumas formas escuras observavam-me com interesse.

Segundos depois, uma dessas formas escuras abaixou o vidro da nave e apontou-me uma pistola cor-de-abóbora cheia de protuberâncias arroxeadas.

Segundos depois, eu estava inconsciente.

Quando finalmente acordei, vi-me deitada num luxuoso canapé vermelho que ficava encostado à parede de um quarto deveras aconchegante onde havia uma lareira, um tapete verde musgo, estantes de livros e música ambiente.

Pisquei os olhos algumas vezes. Aquilo não era possível, eu devia estar sonhando. Ou alucinando. Como eu havia ido parar ali? Por que eu estava ali? Onde, diabos!, era ali?

Levantei-me cautelosamente e, assim que o fiz, as luzes piscaram todas e o quarto se dissolveu como que num caleidoscópio, dando lugar a uma sala de controle tipicamente alienígena com botões tipicamente alienígenas e seres tipicamente alienígenas vestindo gravatas púrpuras tipicamente alienígenas.

- Ok. Não entre em pânico, Carolina, não entre em pânico... - pensei, prestes a, de fato, entrar em pânico.

Eis, então, que um daqueles seres tipicamente alienígenas virou-se vagarosamente em minha direção, abriu sua enorme boca cheia de dentes fosforescentes e disse:

- Ahn... é... a senhorita gostaria de uma xícara de café?

- !!!

Eu fiquei completamente embasbacada. Estava em uma nave alienígena tendo um contato de quarto grau com seres extraterrestres que estranhamente sabiam falar português e tudo o que eles me disseram foi: a senhorita gostaria de uma xícara de café?!

Quem diabos seriam aqueles caras? Por que eles me trouxeram a bordo de sua nave? Onde estariam indo? Como, por Zeus, eles sabiam falar português?

O estranho ser continuava a fitar-me com seus imensos olhos de bolas de tênis. Seu braço seguia estendido em minha direção com uma xícara de porcelana chinesa na mão. Ai, cacete, e agora, o que cargas d'água eu devia fazer?

Resolvi, então, aceitar a oferta, uma vez que, talvez, uma recusa pudesse ser vista como ofensa por parte dos meus anfitriões. Bebi, então, um pequeno gole do líquido preto, rezando por dentro para que aquilo fosse realmente o que conhecemos na Terra como café. 

De fato, para minha alegria, era café. E não estava nada mal, na verdade, só ligeiramente morno.

- É... - tentei um contato.

- Silêncio! - disse outro Ser, levantando-se e subindo em um banquinho - Saudações, terráquea - continuou - Leve-nos ao seu líder!

Oi?! Leve-nos ao seu líder?! Pohan, como assim? Essa era realmente a última coisa que eu esperava ouvir de um ser alienígena. Talvez eu estivesse em um filme de ficção científica de quinta categoria e não soubesse ainda. Onde estariam as câmeras?

- Hã... líder...? - balbuciei sem saber o que responder.

- É, mina! Líder! Tá ligada aqueles caras que comandam tudo, que são os reis da parada? Os fodões, saca?

Tive que esperar alguns minutos para digerir aquelas palavras, mais especificamente aquele linguajar. Os etês eram manos, rappers, então. Que coisa. Quem diria.

- Ahm... seguinte, mano... - comecei, tentando entrar no clima - a parada é que não têm líderes nessa joça, tá ligado? A não ser que vocês estejam querendo falar com o presidente dos Estados Unidos, saca, ele não é o fodão, manja, mas sempre acha que é.

- Ah... - os seres ficaram um momento em silêncio, sem saber como continuar.

- É o seguinte, terráquea - começou outro deles - Nós viemos em paz...

- Não, não, NÃO! - gritou o que ainda se encontrava em cima do banquinho - Tá tudo errado, não é desse jeito que se aborda um terráqueo! Vocês não se lembram do filme? Não era nada disso, não! E você, Mano Brown - continuou, virando-se para o que falava com vocabulário rapper mano - Será que dá pra parar de falar como os terráqueos do filme estúpido que você não pára de assistir?

Minha cabeça começou a girar. Só podia estar alucinando. Olhei em volta e notei algumas fitas de vídeo jogadas a um canto, cópias dubladas de filmes B de alienígenas e um ou outro vídeo dos Racionais MC’s e do Marcelo D2.

- Certo, isso explica muita coisa - pensei com meus botões - Os etês viram essas fitas, aprenderam o português de mano e tentaram um contato. Ah, é claro. Plausível. E o fato de que eu devo estar completamente alucinada, doida varrida e variada das idéias também.

Os tais seres com gravatas púrpuras entreolharam-se sem saber o que dizer. Eu estava meio zonza. Pensei então que, se estivesse de fato alucinando, o melhor a se fazer era entrar de cabeça na alucinação e deixar que ela se desgastasse por si própria. Ou não. Acontece que a única coisa que eu sabia naquele momento era que não sabia era de nada e, portanto, resolvi ser muito mais fácil entrar na onda dos etês e deixar para perceber que tinha ficado louca depois de descobrir em que maldita confusão eu havia me metido desta vez.

- Aí, pessoal - comecei, juntando os últimos traços de eloqüência que me haviam restado - E então, o que vocês gostariam de mim, exatamente?

- Ah, puxa, achei que fosse óbvio! - respondeu o ser do alto do banquinho - Queremos analisá-la, estudá-la e catalogá-la como amostra do espécime humano!

Epa. Aquilo definitivamente não era nada bom.

- Oi?! Como assim?! - exclamei, indignada.

- Hã... - começou outro dos seres, visivelmente constrangido - não é isso o que extraterrestres fazem?

Eu senti que não iria aguentar aquilo por muito mais tempo. Havia alguma coisa muito, mas muito errada ali, e não era só a minha cabeça. Será que aqueles seres estariam sofrendo de algum tipo de amnésia?

- Então - eu falei - Na verdade, extraterrestres não fazem nada disso, não... Achei que vocês soubessem, uma vez que vocês mesmos são extraterrestres, que esses filmes que vocês têm assistido são só ficção, sabe? Bobagenzinha pra diversão de final de semana, essas coisas...

- Ah, é mesmo? Puxa, sabe, é que estamos passando por alguns problemas de memória ultimamente, você entende? Não conseguimos nos lembrar direito o que foi que aconteceu, só que estávamos aqui nas proximidades desse planeta azul quando perdemos a memória, e aí para passar o tempo resolvemos arranjar alguma coisa para fazer, sabe, foi quando conseguimos essas fitas, e tal...

- Ah, eu entendo perfeitamente - eu disse - Mas é justamente isso o que os extraterrestres de verdade fazem, sabia? Digo, observar os terráqueos de longe, manter o mínimo contato possível, aprender sobre eles à distância...

- Aí, truta, quer dizer então que a galera aqui tava tudo no caminho certo sem saber, mano! - disse o tal Mano Brown - Curti, mina, tu é firmeza! - e continuou, virando-se para o outro - Aí, acho que é melhor mandar a princesa de volta pra casa, né não, véio?

- Só. Desculpe-nos, terráquea. Fique em paz.

E, no segundo seguinte, eu estava em casa mais uma vez.

...

terça-feira, 19 de junho de 2012

Encontro Com A Pequena Eu-Mesma De Nove Anos

Encontrei-me com a pequena eu-mesma de oito ou nove anos por estes dias. A garotinha gorducha que escondia os olhos tímidos por trás de uma grossa franja castanha observou-me com interesse.

- Então quer dizer que a gente realmente conseguiu superar o colégio? - ela/eu me perguntou, erguendo as sobrancelhas e dando um suspiro de alívio.

- Superamos isso e muito mais - respondi, abraçando-a/me.

Sentamos de pernas cruzadas no tapete da sala e conversamos por horas a fio, comendo leite condensado com chocolate granulado e ouvindo as músicas da fita do Brink Book.

- Mas, me diz, você tá feliz? - ela/eu me perguntou entre uma colherada e outra do melhor doce do universo da minha infância.

- Tô, querida eu-mesma. Continuo sem ter a mínima ideia do que diabos vamos fazer da vida daqui pra frente, mas tô feliz.

- Ah, relaxa. Eu também não conseguia e, veja, você é a prova viva de que isso não importa muito, no fim das contas.

Brincamos despreocupadamente a tarde toda. Inventamos histórias mirabolantes para encenar com nossas Barbies, desenhamos figuras psicodélicas com giz de cera colorido e tomamos Coca-Cola até as nossas barrigas doerem.

A pequena eu-mesma de nove anos foi embora surpresa por descobrir que havia mudado tanto.
A atual eu-mesma de vinte e três anos foi embora surpresa por descobrir que, passados tantos anos, nada realmente mudou.

...

(:

Pequena Eu-Mesma na época em que achei
que seria uma ótima ideia cortar sozinha
minha própria franja.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Conjecturas Ébrias De Uma Noite Qualquer

É.
E aí você chega em casa à noite, nem é tão tarde assim.
Ou é.
Mas não importa.
Está bêbado. 

Os minutos voam indiferentes à sua cara chapada de olhar perdido. 
Os pensamentos são elefantes coloridos que patinam alegres no seu cérebro. 

Tem sono; não consegue dormir. 
Tem fome; não consegue comer.
Tem inspiração; não consegue escrever.

Fica com os olhos vidrados na tela do computador, os lábios ligeiramente abertos, a cabeça ligeiramente cheia de idéias.

Sabe muito mais do que poderia saber se estivesse sóbrio.
Sabe muito menos do que poderia saber se não estivesse vivo.

Daqui a algumas horas já não mais se lembrará da maioria destas conjecturas.

Então se pergunta, pra quê?
Por quê?
O quê?

Pensamentos vagos e desconexos simplesmente imploram para serem escritos.
Eles na verdade nem sabem o que são ou para que servem, só sabem que precisam ser escritos.

Bem, são mais ou menos como os seres humanos, não são?
Não sabem o que são ou para que servem, só sabem que precisam...

Precisam de quê?

Aquele velhinho na cadeira de rodas, cego e mudo, precisa de quê?
Aquela garota tímida e medrosa que vive a vida da mãe, precisa de quê?
Aquele garotinho doente terminal que nunca pôde ver o Sol, precisa de quê?
Aquela pessoa desnorteada que escreve essas palavras precisa de quê?
Aquela pessoa desnorteada que lê essas palavras precisa de quê?

Ninguém sabe, ninguém vai saber, nada disso interessa.

Interessante, mesmo, é o quão desinteressante tudo isso aí é.
Entretanto, quanto mais eu me desinteresso, mais interessada fico nos desinteresses que têm a maioria interessada da população.
Não sei se o problema sou eu e meu interesse desinteressado ou o mundo e seu interessado desinteresse.

Mas, e daí?

Só é certo que as borboletas verde-limão dançam valsa com as raposas de vestido de sabão.

...

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O Passeio Noturno Da Mulinha Caipira

A meia-noite de uma sexta-feira junina anunciava-se, friorenta e preguiçosa, enquanto a pequena mulinha caminhava despreocupadamente pela estrada de terra. Locomovia-se com vagar, pata ante pata, passeando tranquila pelos ermos sítios interioranos. Conhecia bem o caminho, utilizava-o noite após noite como campo de passeio para fortalecer os músculos de suas finas pernas atarracadas. Seu pelo cinzento brilhava na garoa fina, fazendo-a parecer, como alguns de seus colegas de fazenda haviam dito, um unicórnio cintilante. Não que soubesse, exatamente, o que diabos significaria parecer-se com um unicórnio cintilante. Mas parecia ser algo bom, no fim das contas. As galinhas que lhe confidenciaram isto possuíam um bom coração. E ela gostava de coisas boas, para falar a verdade. Coisas boas faziam a vida boa, como aquela boa caminhada noturna, na mais completa e deliciosa solidão.

E lá estava a nossa amiga mulinha aproveitando ao máximo sua própria companhia quando eles apareceram. Vieram em algo luminoso e barulhento, rindo histericamente e fazendo grandes sulcos na terra molhada. Retiraram impiedosamente algumas pedras que serviam como ponto de base e encurralaram a pobre mulinha em uma ribanceira. Ela não sabia o que estava acontecendo, o que deveria fazer ou como sairia daquela situação. Aquilo definitivamente não era uma coisa boa. Não, realmente não era.

Com o coração acelerado, a mulinha deu alguns passos incertos até uma cerca de madeira. Seu coração disparara, precisava se recompor. Nunca antes havia passado por algo como aquilo. Quem seriam aqueles seres? O que será que eles poderiam querer com uma pacata mulinha como ela?

A máquina luminosa aproximou-se, deixando o som das gargalhadas e dos metais distorcidos mais alto. A mulinha contou pelo menos cinco seres escuros com olhos brilhantes dentro dela. O quê diabos seriam eles?

A mulinha lembrou-se, então, com o coração apertado, das histórias que seu colega peru contava antes de desaparecer por completo em uma véspera de Natal. Eram histórias sobre seres de outros planetas e das estrelas distantes do céu noturno que apareciam de tempos em tempos nas fazendas do mundo para sequestrar os animais e fazer experiências terríveis com seus cérebros e tripas ou expô-los em zoológicos intergalácticos sem comida decente por milhares de anos a fio ou até que morressem de fome.

"Meu Fazendeiro Divino!" pensou a mula "Estou prestes a ser abduzida por alienígenas!"

Um dos seres que estavam dentro da máquina luminosa abriu magicamente uma janela de vidro e colocou para fora um aparelho cintilante.

"É agora" pensou a mula fechando os olhos "Adeus, Terra. Adeus, fazenda. Adeus caminhadas noturnas. Adeus..."

Clique. Risadas. Roncos de motor. Silêncio.

A mulinha abriu hesitantemente os olhos. À sua volta, apenas as conhecidas árvores e pedras de sempre. A terra em que pisava estava um pouco bagunçada, é verdade, mas, fora isso, tudo na mais perfeita normalidade.

Ela não fora abduzida, no fim das contas. Mas uma experiência como aquela ficaria para sempre guardada em sua memória. Ela nunca mais seria a mesma. Aquela mulinha tranquila e pacata que gostava das coisas boas da vida havia acabado de morrer.

...

Daquele dia em diante, a mulinha passou a intitular-se A Enviada Do Fazendeiro Divino e pregar insistentemente que o Fim do Mundo estava próximo e todos os que não se arrependessem de seus pecados e aceitassem a palavra divina do Fazendeiro seriam levados pelos Terríveis Alienígenas Gargalhantes para o outro lado da galáxia e arderiam eternamente em plantações de cana extraterrestres até o dia do Juízo Final.


XD

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Ai, que Preguiça.

Acordei hoje cedo e lá estava ela.

Cabelos despenteados, roupas largadas e pantufas de patas de dinossauros.

Mal levantara-me e ela já pulara apressadamente em meus ombros, pesando por volta de uns duzentos e vinte e oito quilos e aconchegando-se desconfortavelmente entre as minhas omoplatas.

- Bom dia, Carol - disse-me ela, acendendo um cigarro e indicando que não sairia de onde estava assim tão cedo - Por quê você não fica na cama mais uns cinco minutinhos? Tá tanto frio, o edredom tá tão quentinho, você tá com tanto sono...

- Porra, Preguiça. Não tem mais ninguém no mundo pra você atazanar?

- Até tem. Mas ninguém me ama tanto quanto você.

...


...

Ai, que preguiça.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Dia da Toalha

NÃO ENTRE EM PÂNICO!!


Interrompemos a nossa programação normal para um comunicado especial de suma importância para todos os Mochileiros das Galáxias que desejam viajar pelo Universo gastando apenas trinta dólares altairianos por dia:

NUNCA SE ESQUEÇA ONDE COLOCOU SUA TOALHA!

Obrigada.

...

Um bom Dia Da Toalha, colegas mochileiros!!


(Em tempo: Se algum alienígena interessado em cultura humana estiver lendo isso aqui, saiba que eu sou -quase- historiadora e, bem, se você tiver uma nave espacial e quiser me dar uma carona eu prometo que conto tudo o que há para se saber de mais interessante -ou não- sobre essa espécie ridícula e limitada que evoluiu dos primatas enquanto tomamos Dinamites Pangalácticas no Restaurante No Fim Do Universo. Aguardo resposta.)


42.


"Ô seu moço do disco voador, me leve com você, pra onde você for! Ô seu moço, mas não me deixe aqui enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí!"

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O Inventor Leprechaun Resolvedor De Problemas da FFLCH


Existem alguns dias em que a realidade fica terrivelmente cansada da rotina e tira uns momentinhos de folga, toma uma cerveja e assiste calmamente ao jogo do Corinthians.

Aquele era exatamente um daqueles dias.

Era hora do almoço e tudo corria na mais completa normalidade. Eu havia acabado de almoçar no bandejão da química na USP e pensava distraidamente que estava sem nem um mísero cigarro no bolso para ajudar a fazer a digestão daquela pasta que diziam ser comida saudável e saborosa - só que ao contrário - e que já começava a pesar feito bigorna em meu estômago.

Foi então que o inventor leprechaun resolvedor de problemas apareceu. Bem, a princípio ele parecia ser apenas mais um estudante qualquer da FFLCH: tinha barba e cabelos loiros, compridos e emaranhados e parecia não tomar um bom banho há pelo menos uma semana. Era baixo, devia ter ainda menos que um metro e meio, e usava um pingente de cristal do tamanho da minha palma pendurado ao pescoço. Parecia-se com um duende, mesmo, pequeno, mirrado e cabeludo. Eu imaginava o quão excêntrico ou pseudo-esotérico aquele moço poderia ser quando ele me cumprimentou:

- Oi! - disse-me.

- Ah, oi - respondi. Seria possível que eu o conhecesse e não estivesse me lembrando? Isso já acontecera algumas vezes. Esta que aqui vos escreve fica sociável demais depois de algumas cervejas, e a memória, careta que é, não gosta muito de acompanhá-la. Mas aquele moço era um completo desconhecido: se eu o tivesse conhecido antes com certeza já teria escrito algum texto qualquer com um personagem como ele.

- Você está com algum problema? - perguntou-me.

Encarei-o. Que tipo de problemas eu poderia ter? Digestivos, talvez, devido à carne moída à fantasia recém engolida? Ou psicológicos, quem sabe, por ser estagiária em um ambiente cheio de peixes grandes? De qualquer forma, quando um tipo fefelechento bizarro com um penduricalho brilhante no pescoço lhe pergunta gratuitamente se você está com algum problema, de fato você deve estar com algum problema.

- Ah, é...

- É porque eu sou um resolvedor de problemas, sabe - continuou o moço - Posso resolver qualquer problema. Menos problemas financeiros, né, porque estou passando por uma fase difícil de conseguir grana. Eu criei um tipo de colisor de elétrons portátil há uns dois meses e não saiu o dinheiro da minha patente, ainda.

Oi? Eu escutei direito? O cara disse que havia criado um colisor de elétrons? Um colisor de elétrons portátil?!

- Puxa, que coisa. É, essas coisas demoram para sair, mesmo - eu respondi, meio desnorteada. O que mais eu poderia responder?

- É, demoram sim. Só que aí fica difícil viver com isso. Eu estou pensando seriamente em começar a vender jóias para ver se consigo dinheiro. Porque eu crio jóias, também, sabe?

Um inventor de um colisor de elétrons portátil que cria jóias. Certo.

- Mas não sei se eu mesmo vou manufaturar as jóias ou vou se vou vender os desenhos para alguma joalheria. Eu tenho tudo o que preciso para fazer, sabe, as pedras, e tal. Mas estou meio sem tempo. E sem dinheiro pra investir, também.

- Hum. É.

- O dinheiro que eu tinha ganhado com meu antigravitacional já acabou.

- Com o seu o quê?

- Antigravitacional. Eu criei um sistema antigravitacional alguns anos atrás. Os helicópteros e aviões já estão usando esse sistema, é claro. Se não estivessem, como você acha que eles poderiam ficar tanto tempo no ar, voando, pesando tantas toneladas?

Mas é claro. Como eu nunca havia pensado nisso? Físicos, para o inferno com a aerodinâmica.

- Que legal. Você é um inventor, então - eu disse, dando trela.

- Ah, sim, gosto muito de criar coisas - continuou o moço - Mas, sabe qual é o problema? As pessoas criam as coisas que eu criei primeiro e ficam com todo o crédito.

Ah, eu sei. Eu também já passei por isso. Por muitas vezes achei que tinha tido uma ideia genial e original e logo depois descobri que a mesma já tinha sido brilhantemente elaborada por outra pessoa há pelo menos uns vinte anos antes dos meus pais sequer cogitarem a possibilidade de me deixarem nascer.

- Isso é complicado, né, ter uma ideia que alguém já teve mesmo sem nunca ter tido contato com ela.

- Não, não é isso! Acontece que as pessoas me veem dentro da cabeça delas criando coisas e acham que foram elas mesmas que criaram essas coisas que eu crio. Mas na verdade fui eu! Eu é que pensei nelas, sozinho. E como eu pensei a ideia dentro da cabeça delas, essas pessoas acabam ganhando todo o mérito pela minha invenção. Muito ruim, isso.

- As pessoas te veem dentro da cabeça delas tendo ideias e ganham todo o mérito pela sua invenção - repeti numa vã tentativa de que aquilo fizesse mais sentido - Hum. Porra, muito ruim, isso. De fato.

- Mas faz parte, não tem problema. Aliás, por falar em problema, você ainda não me falou qual é o seu problema! Vamos, não posso resolver o seu problema sem que antes você me diga qual é.

Meu caro, se um de nós dois aqui tem qualquer tipo problema, estou inclinada a pensar que definitivamente não sou eu.

- Bem - eu disse - Na verdade, meus cigarros acabaram.

O inventor rapidamente sacou um maço pela metade de Marlboro vermelho e entregou-me, sorrindo de orelha a orelha, três lindos cigarros.

- Problema resolvido! - disse ele dando um pulinho - Viu só como eu sou um resolvedor de problemas?

E foi-se embora, desaparecendo por completo no minuto seguinte. Acendi um cigarro e traguei-o longamente. A realidade voltava, finalmente, ligeiramente ébria e puta da vida com o Corinthians.


...


Olá, meu nome é Ana Carolina e eu sou para-raio de malucos.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Um breve conto de fadas


Há muito, muito tempo, em uma distante e longínqua planície localizada além do bosque dos gnomos cor-de-abóbora e a noroeste das montanhas geladas do sul, havia um pequeno vilarejo tranquilo e delicado onde todos os que lá viviam conheciam-se e eram amáveis uns com os outros.

Todos exceto Adamastor, O Terrível.

Adamastor, O Terrível, era um forte e peludo homem de olhos frios e cinzentos e emaranhada barba negra como a noite que possuía especial apreço por amedrontar o resto da população com o objetivo de obter fama, poder e, por que não?, ouro. Muito ouro. Os comerciantes eram, em geral, suas principais vítimas. Gostava de ver o terror nos olhos dos miúdos senhores donos de padarias, açougues, tabernas e mercearias quando aparecia para cobrar sua taxa mensal pela segurança dos estabelecimentos. Gostava do tinir das moedas douradas quando estas eram passadas para suas enormes mãos calejadas. E gostava ainda mais quando os proprietários não possuíam dinheiro suficiente para lhe pagar e ele podia descontar sua raiva cega pela humanidade destruindo tudo o que encontrava pela frente. Alguns já haviam tentado se rebelar, é verdade; mas apenas a visão de seus músculos muito bem cultivados e sua terrível expressão de fúria já funcionava como excelente barreira contra quaisquer reclamações.

Ninguém nunca tivera coragem para enfrentar-lhe no corpo-a-corpo.

Nunca, até aquele fatídico dia.

Era uma fresca e ensolarada manhã de outono e Adamastor havia levantado-se da cama particularmente bem-humorado. Era dia de cobrar a taxa de segurança da taberna do Senhor Rufus Roffinsthëin, o mais assustadiço e enrugado de todos os donos de estabelecimento da pequena vila. E o Senhor Rufus quase nunca possuía a quantia de ouro necessária para o pagamento, o que significava, que beleza!, que muito provavelmente ele iria, em breve, quebrar muitas coisas caras e essenciais para a vida de outra pessoa. Pensar sobre isso fez com que abrisse um largo sorriso enquanto caminhava até a dita taberna.

- Bons dias, meu caro Rufus!! - disse Adamastor, dando um forte pontapé na porta de madeira ao entrar - Como vamos hoje? O movimento tem sido bom?

- Ah! O-o-oi A-da-da-m-m-mas-s-s-stor-r! É, b-b-bem, tá b-b-bom, s-s-sim... - gaguejou o velho Rufus.

- Que bom, que bom! - disse Adamastor, flexionando os dedos - Será que isso significa que este mês você vai me pagar tudo o que deve?

- E-e-eu... A-a-a-da-da-m-m-mas-t-t-tor... eu...

- Ah, mas que pena, heim? - respondeu Adamastor balançando a cabeça - Isso é triste. Você sabe o que eu preciso fazer se você não pagar, não sabe? - continuou, empurrando para o chão todas as garrafas e copos que localizavam-se acima do balcão - Que pena, que pena...

Adamastor começou a derrubar as prateleiras uma por uma. Quando chegou ao balcão que havia próximo a cozinha, porém, parou subitamente. Um rosto fino de mulher observava-o a um canto. Ele não a conhecia. E ela era linda.

- Quem... quem é essa moça? - perguntou Adamastor, embasbacado com a beleza da jovem.

- É-é-é m-m-mi-n-n-nha... - começou Rufus, mas foi interrompido pela própria dona do rosto.

- Sou Lilhium. Lilhium Salvatori. E este lugar que você está colocando abaixo é a taberna do meu tio.

A moça era realmente muito bonita. Possuía compridos cabelos negros e vivíssimos olhos de um verde tão claro quanto a cor das copas das árvores ao amanhecer. Provavelmente era estrangeira, uma vez que Adamastor não a conhecia. Mas se era sobrinha do velho e caquético Rufus...

- Ora, ora, ora - começou Adamastor, desviando os olhos da moça e focalizando Rufus - Meu querido Rufus - continuou, encostando nos ombros do velho - Estou pensando cá com os meus botões, talvez possamos resolver a questão do seu pagamento de alguma outra forma.... – e olhou significativamente para a garota.

- O quê? - disse Lilhium indignada – Você está achando que sou algum tipo de mercadoria de troca?

- Acalme-se, docinho, ainda não estou falando com você - respondeu Adamastor. Mulheres não deveriam ser capazes de falar, já que não o eram de pensar - O que você me diz... - começou a perguntar ao velho Rufus.

- Você me chamou de "docinho"? - interrompeu Lilhium entredentes - Eu vou lhe mostrar quem diabos é um docinho.

- Oh! - sorriu ironicamente Adamastor. "Mulheres", pensou - Como é bravo este docinho! Eu vou só...

- VÁ SE FODERRR!

E o "docinho" desceu o cacete em Adamastor, O Terrível. Em verdade, o peludo homem se valia mais do terror que inspirava do que de sua força em si para conseguir o que queria. Nossa heroína, que aprendera as artes marciais no tempo em que viajara pelo Oriente do mundo, acabou habilmente com toda e qualquer prepotência do malvado vilão.

Depois deste fatídico acontecimento o vilarejo festejou três dias e três noites em honra a Lilhium, a Para O Diabo Com Docinhos, ergueu uma estátua em sua homenagem no centro da praça e todos viveram felizes para sempre.

(Bem, todos exceto Adamastor, O Que Outrora Fora Terrível E Agora Descobrira-se Ser Um Verdadeiro Covarde, que caiu em desgraça devido à surra que levou de "docinho" e foi viver como eremita vegetariano em uma caverna nas profundezas das Montanhas Geladas.)

E fim.
...

XD

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Um sonho de memória alterada

Noite estrelada - Vincent van Gogh

As estrelas tem cor do gosto da água fria.
Sinestesia.

Da crista de uma onda de vapor inebriante posso ver o estrondo das ideias se liquefazendo e correndo em cascata pelos meus ouvidos.
Tudo é amarelo-ouro e alguns poucos grunhidos.

Palavras desconexas passeiam despreocupadamente por um deserto rosa e vermelho, pouco interessadas em se fazerem entender.
Uma árvore escura contra o céu de estrelas repassa toda a sabedoria humana para quem puder o acaso compreender.

Todas as perguntas para todas as respostas de todas as perguntas sapateiam graciosamente no salão de festas do meu cérebro, lutando ferozmente para saírem todas juntas, de uma só vez.
O som então se perde no labirinto confuso da cabeça ébria e trava na garganta, veste um esvoaçante manto de fumaça e mostra toda a completude do mundo em sua mísera pequenez.

...

Em um sonho de memória alterada encontrei os sentidos universais do cosmos e do que poderia vir a ser Deus.
No momento em que acordei, porém, tudo era cinza e fogo e eu não fazia mais ideia de quem eram os filisteus.