Mostrando postagens com marcador Considerações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Considerações. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Passatempo

É de manhã, faz um lindo Sol lá fora e você encontra-se trancado em um cubículo branco e cinza de frente para um computador.

Deveria estar trabalhando, criando, desenvolvendo qualquer coisa (in)útil para o ainda mais (in)útil mercado de trabalho.

Mas está com preguiça.

Toda a sua capacidade cognitiva está descansando tranquilamente recostada em cadeiras de praia à beira-mar e tomando drinques refrescantes adornados com guarda-chuvinhas coloridos.

E você só poderá juntar-se a ela quando o relógio finalmente marcar seis horas da tarde.

Ainda são onze horas da manhã.

Pois bem.

Como o que não há remédio remediado está, creio que o melhor a se fazer é, então, escrever para passar o tempo.

Sim, isso pode ser algo interessante.

Vamos lá: ferro de passar roupa, tomada, eletricidade, água, tábua.

Tempo se passa com vinco? Ou sem vinco?

Droga, minha mãe sempre me disse que eu precisava aprender a passar roupa, não o tempo.

Uma borrifada d'água aqui, uma dobradinha ali; não deve ser assim tão difícil, afinal.

Só é preciso muito cuidado para não queimar, realmente. Tempo queimado cheira mal, causa estresse e bolhas nos pés.

Lá lá lá, e, voilá!, um tempinho passadinho rapidinho!

...

Certo. E que faço eu agora com todo esse tempo que ainda está por passar?

Tenho a impressão de que ele ficaria muitíssimo melhor passado se eu estivesse fazendo qualquer outra coisa que não isto que deveria estar fazendo.

Sim, de fato.

Sinta o gosto dele, realmente está muito mal-passado, você não acha? Está mesmo quase cru, eu diria; veja só todo esse sangue que ainda escorre.

E nem adianta colocá-lo um pouco mais no fogo, tempo mal passado é imutável, permanece assim para toda a eternidade, feito cinza de lembrança.

Para que o tempo fique bem passado é necessário que assim seja desde o início, como você bem deve saber.

Desde o início.

E o quê diabos seria o início?

Bem, imagino que o início do tempo relativo seja relativo, enquanto o início do tempo absoluto é absoluto.

Agora, o que de fato seria tempo, relativo, absoluto e, conseqüentemente, o início, "decifra-me ou te devoro", a resposta para todas as perguntas não passa de um pedaço de queijo suíço com quarenta e dois buracos de diferentes tamanhos. E tamancos brancos. Francos. Aos prantos.

...

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Sobre Deus, pelo Velho Eremita da Montanha Azul De Bolinhas Vermelhas

Deus?
Certamente já está na hora de um novo deus tomar o poder.
Claro, nada mais natural.
É assim desde sempre, não é?
Um deus assumindo no lugar do outro, eu quero dizer.
Ciclo natural do Universo, todo mundo sabe disso.
O problema seria se se tentasse recolocar um antigo deus no poder: aí, sim, as coisas poderiam ser bastante catastróficas.
Porque os deuses antigos estão seguramente mortos.
Ou esquecidos.
Ou mais preocupados em encher a cara e jogar pingue-pongue em algum planeta aleatório com uma espécie pseudo-inteligente muito mais interessante do que a humana.
Você não acha?
Pois bem.
Que tal uma partida de bolinhas de gude?

...

Uma coisa é você acreditar em algum deus. Outra, é ele acreditar em você.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Sobre Pensamentos Livres e Ideias Intraduzíveis


Um mundo de ideias passeava pelo meu cérebro.

Pensamentos dançantes saracoteavam sem pudores por todos os lados, despidos de toda e qualquer regra gramatical ou coerência verbal.

Eram simples ideias existindo, pulsando, dançando a Macarena.

Pensamentos intraduzíveis vestidos de piratas jogando dominó.

Pensamentos apalavreados bebendo Dinamites Pangalácticas e cantando Roberto Carlos.

Pensamentos livres.

Pensamentos pura e simplesmente livres.

Tive então a ousadia de sentar-me à frente do computador para escrevê-los.

Forcei-os a parar, enfileirei-os, etiquetei-os.

Tentei persuadi-los a se submeterem à gramática, às letras, às palavras.

Mas eles eram livres.

Eram meus pensamentos livres e minhas ideias intraduzíveis.

Se os explicasse e os transformasse em palavras eles não mais seriam meus, não mais seriam livres.

Acabariam por se tornar apenas outra idéia jogada na prateleira do supermercado de ideias, comum, barata e empoeirada.

Não teriam mais a menor graça!

Resolvi então deixar que eles continuassem a fazer o que quer que um pensamento livre gosta de fazer com uma ideia intraduzível altas horas da madrugada e ir procurar por vida inteligente na mancha verde de mofo que surgiu no pedaço de pizza esquecido na geladeira desde o mês passado.

...

sábado, 8 de setembro de 2012

Considerações #4: Observâncias

Ao observarmos a imensidão negra do céu, à noite, vemos nada mais, nada menos, do que pálidos reflexos do fogo de titânicas constelações, muitas delas extintas há milênios.

Ao observarmos o espelho...

...

O que você vê?

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A Criação


No princípio, era a Água.

Não havia sensação alguma.

Apenas Água.

Aos poucos, formou-se no horizonte um pequeno ponto brilhante.

Não que aquele fosse, realmente, o Horizonte, ou que o pequeno ponto brilhante fosse, exatamente, um Pequeno Ponto Brilhante.

Mas era alguma coisa; alguma coisa que abalava a estaticidade entediada da Água.

E aumentava.

Cada vez maior, cada vez mais brilhante.

Cada vez mais perto.

Um som surdo, absurdamente alto e quase que completamente imperceptível, começou a tomar forma.

Era o Som do Silêncio.

O Som do Silêncio Vivo.

A Água agitava-se.

Tons de azul e violeta tomavam lugar na transparência das bolhas que se formavam.

Um frio metálico foi sentido por alguma coisa inominável: a Água passava, então, a sentir.

O que antes era um pequeno ponto brilhante agora já se tornara uma imensa e ofuscante bola de luz branca.

Foi então que aconteceu.

A imensa e ofuscante bola de luz branca chocou-se estrondosamente com a Água.

E, da explosão de cores e sons jamais imaginados e nunca mais vistos causada por tal impacto, surgiu, aleatoriamente e de nenhum lugar em específico, tudo aquilo que nos acostumamos hoje em dia a chamar de Vida, Universo e Tudo o Mais.

...

(Inspirado em uma pseudo-regressão empreendida por esta que vos escreve durante algo como uma amostra grátis de um curso de "auto-conhecimento" caríssimo onde se abduzem pessoas e comem-se seus cérebros)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Pensamentos Aleatórios Fixados Com Super Bonder

Olha, eu sinceramente não sei.
O quê?, não sei.
Por quê?, não sei.
Simplesmente, eu não sei.

Pobres seres humanos limitados e egocêntricos.
Vosso desejo é verdadeiramente real ou o que vos moveis é justamente a busca por um objetivo ideal?

Oh, céus.
Réus.
Créus!

Seguramente a razão deveria ser dada àqueles que não têm razão.
Sim, pois aqueles que já possuem razão não precisariam de mais razão, concorda?
Ou sem corda?
Acorda!

Paralelepípedo, inconstitucionalissimamente, transatlântico, energúmeno, fanfarronice, ecleticamente, ignóbil, parapsicologia.

Nexo, anexo, sem nexo!
Sexo?

...

Algumas vezes, elevadores são apenas escadarias que subiram de nível.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Considerações #3: (Sem) Sentido

Uma palavra qualquer, quando repetida por muitas vezes, perde todo o sentido.

Sentindo o sentir do sentimento sentido, sinto o que sinto sentindo o sentir do próprio sentimento sentido quando é sentido por apenas sentir.

O sentido, quando sentido repetidas vezes para que se sinta o próprio sentido do sentir, também perde todo o sentido.

...

Sentiu?

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Uma vida aos brindes simples das coisas!

Quando você perceber que as únicas coisas que sobraram no seu bolso no fim das contas são um maço de cigarros amassado e duas tampinhas de cerveja, saiba que chegou a hora de voltar a caminhar a esmo pelas ruas e caçar lagartixas psicodélicas.

...

Um feliz aniversário para mim!
(Porque, afinal, hoje é dia de RÓQUE, bebê.)


\m/,

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Considerações #2

Observatório Astronômico de Manksaoosin.
Desenhado por Caranguejo Excêntrico durante
alguma aula ruim em setembro de 2009.


Tempo, tempo, tempo.
A lua, fria, brilha branca no céu estrelado e friorento que reflete todo o passado do universo.
Tempo, tempo, tempo.
Os beija-flores senhores das eras esqueceram-se de acertar seus relógios para o horário de verão.
Tempo, tempo, tempo.
Que diabos estou tentando dizer?

...


Você já parou para pensar que tudo o que viveu pode ter sido apenas o sonho alucinado de uma velhinha em coma?
Já parou para refletir que todo o seu passado pode ser simplesmente uma projeção da sua mente perturbada para explicar a discrepância entre as suas sensações físicas imediatas e seu estado de espírito?
Já parou para meditar que um sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas um sonho que se sonha junto é a realidade?

...

E, para aqueles que se julgam sábios, a minha mais pura compaixão.
Ou não.
A felicidade é a mais completa forma de dominação.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Considerações #1

(Ouvindo o álbum Piper at the Gates of Dawn do Pink Floyd)

Os magos coloridos presos em castelos de cartas meio desmoronados não podem fazer absolutamente nada por você, lembre-se disso.
A menos que um deles possua como animal de estimação um gato siamês de nome Lucifer Sam.
Aí, sim, as coisas podem ser ridiculamente diferentes.

...

Se você, por acaso, conhecer um gnomo barbado vestindo uma túnica vermelha e um capuz azul e verde que atenda pelo nome de Grimble Crumble, ofereça-lhe imediatamente uma taça de vinho bom.
Se você não o conhecer, bem, beba você mesmo a tal taça de vinho.

...

A questão é: não há questão.
Bem, talvez até haja, na verdade, uma questão; mas tal questão tornou-se de tal maneira tão inquestionável que hoje em dia ninguém mais se questiona se aquela não-questão não seria, em realidade, uma questão-questão.
Ou não.

...

Estranho é tentar explicar o que não tem explicação; loucos são aqueles que se consideram sãos.

...

42.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Conjecturas Ébrias De Uma Noite Qualquer

É.
E aí você chega em casa à noite, nem é tão tarde assim.
Ou é.
Mas não importa.
Está bêbado. 

Os minutos voam indiferentes à sua cara chapada de olhar perdido. 
Os pensamentos são elefantes coloridos que patinam alegres no seu cérebro. 

Tem sono; não consegue dormir. 
Tem fome; não consegue comer.
Tem inspiração; não consegue escrever.

Fica com os olhos vidrados na tela do computador, os lábios ligeiramente abertos, a cabeça ligeiramente cheia de idéias.

Sabe muito mais do que poderia saber se estivesse sóbrio.
Sabe muito menos do que poderia saber se não estivesse vivo.

Daqui a algumas horas já não mais se lembrará da maioria destas conjecturas.

Então se pergunta, pra quê?
Por quê?
O quê?

Pensamentos vagos e desconexos simplesmente imploram para serem escritos.
Eles na verdade nem sabem o que são ou para que servem, só sabem que precisam ser escritos.

Bem, são mais ou menos como os seres humanos, não são?
Não sabem o que são ou para que servem, só sabem que precisam...

Precisam de quê?

Aquele velhinho na cadeira de rodas, cego e mudo, precisa de quê?
Aquela garota tímida e medrosa que vive a vida da mãe, precisa de quê?
Aquele garotinho doente terminal que nunca pôde ver o Sol, precisa de quê?
Aquela pessoa desnorteada que escreve essas palavras precisa de quê?
Aquela pessoa desnorteada que lê essas palavras precisa de quê?

Ninguém sabe, ninguém vai saber, nada disso interessa.

Interessante, mesmo, é o quão desinteressante tudo isso aí é.
Entretanto, quanto mais eu me desinteresso, mais interessada fico nos desinteresses que têm a maioria interessada da população.
Não sei se o problema sou eu e meu interesse desinteressado ou o mundo e seu interessado desinteresse.

Mas, e daí?

Só é certo que as borboletas verde-limão dançam valsa com as raposas de vestido de sabão.

...

terça-feira, 12 de junho de 2012

Considerações de um Gato e sua Cartola

Em uma tarde ensolarada, um Gato e sua Cartola resolveram sair para um passeio vespertino.

De mãos dadas, observando a Dança da Chuva das Gaivotas em frente ao Monumento Nacional dos Berguelotes, perceberam finalmente o quão mundano o mundo é.

Voltaram para casa às cinco em ponto, batendo o ponto dos cinco condes desfigurados que viriam para tomar chá de boldo e espanando as últimas metafísicas poeirentas do busto do Rei Salomão.

Enquanto comiam bolinhos de limão com açúcar e bebiam cogumelos doces, surgiu o assunto que tanto os afligia:

— Já reparou em como o nosso jardim anda preto e branco?  —  perguntou a Cartola, acendendo um cigarro.

— Ora essa, eu pensei que andassem com muletas — respondeu o Gato, erguendo uma sobrancelha  —  Você não engessou ou girassóis e as violetas na semana passada?

— Engessei  —  respondeu a Cartola, soprando pequenos anéis coloridos de fumaça  —  Acontece que eles perderam a cor.

— Sim —  disse o Gato, bebendo um gole de seu chá pensativamente —  Pelo menos as flores sem cor têm perfume.

Silêncio.

— O que será que pensa uma borboleta preta?

...

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Sobre os Sacanas Que Controlam O Destino Da Humanidade

Você já parou para pensar em como os seres que controlam o destino da humanidade conseguem ser definitivamente sádicos e sacanas?

Imagine uma sala circular no topo de uma torre de altura incalculável.

Imagine cortinas furta-cor caleidoscópicas, grafites coloridos nas paredes, vídeo-games de realidade virtual conectados vinte e quatro horas por dia, jogos de tabuleiro revirados, revistas de histórias em quadrinhos e livros de filosofia espalhados no tapete, pacotes de salgadinhos pela metade, garrafas de cerveja vazias e maços de cigarros meio amassados jogados pelo chão.

Imagine várias janelas ovais com telescópios apontados para todos os territórios da Terra e alguns seres indefiníveis largados em poltronas coloridas e confortáveis vestindo bonés de beisebol, óculos escuros e tênis All Star.

- Mano! - diz um destes indefiníveis seres - Que tédio!

- Podiscrê - responde o outro, que usa um moicano verde na cabeça - Quer jogar mais uma partida de Street Fighter, Bob?

- Ah, Zod - responde o primeiro - Tô de saco cheio, já.

- Caras - diz um terceiro, de barbicha, enquanto fumava na janela - Vocês tão ligados que tem uma galerinha esquisita lá em baixo, não?

- Uma galerinha esquisita? - diz o que se chamava Zod - Como assim, Tod?

- Se liga, olha lá! Será que eles veem a gente?

- Vixe, acho que não - diz Bob, acenando entusiasticamente pela janela - Da onde esses trecos vieram?

- Sei lá, mano. Vai ver foi a cinza desse cigarro horroroso do Tod que criou vida - responde Zod.

- Véi - diz Bob dando um pulo com os olhos brilhando - Será que a gente consegue brincar com eles?

- Brincar? Como assim?

- É! Tipo fazer chover bem no dia em que eles marcaram de ir à praia. Ou colocar umas ideias malucas nas cabeças deles para ver o que acontece depois. 

- Manolo, isso vai ser muito divertido!! - diz Zod, animado, abrindo uma garrafa de cerveja e sentando-se em frente a um dos telescópios - Quem é que vai buscar as pipocas?

...
Bob, Zod e Tod: Os Sacanas Que Controlam O Destino Da Humanidade
...

É, véi. Eles devem estar se divertindo horrores, agora.

XD

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Nostalgia

Precisei arrumar meu armário por estes dias.

Buraco-negro que é, muitas coisas desaparecem em meio a túneis intergalácticos por trás daquelas portas de madeira e reaparecem séculos depois, empoeiradas e bêbadas, perguntando quem diabos são e se haverá lasanha à bolonhesa para viagem no jantar.

Encontrei um pote de sorvete esquecido desde o meu aniversário do ano passado com dois bombons e um chocolate com licor, seguramente escondidos para evitar possíveis intervenções gulosas de irmãs mais novas - mas que, talvez por vingança maligna das ditas-cujas, infelizmente estragaram-se antes que eu me lembrasse de sua existência e tornaram-se absolutamente não-comestíveis.

Encontrei também um tipo de nova civilização inteligente, composta de um emaranhado de fios de cabelo e tufos grossos de poeira cujo nível de desenvolvimento estava prestes a atingir o estágio espacial e cuja mitologia afirmava que, no Dia do Juízo Final, uma Terrível Besta Descabelada viria, empunhando o Maléfico Sugador Das Almas, e devastaria toda e qualquer forma de vida existente.

E encontrei, vejam só, algumas várias lembranças amarelecidas de um passado longínquo onde tudo era doce e intenso e minha vida era só poesia, emoções e garrafas de vinho.

Tombei fora os chocolates mofados, aspirei impiedosamente a civilização cabeluda.
E pendurei, carinhosamente e em pequenos potes ovais de cristal translúcido, as antigas lembranças fragmentadas no teto da minha alma.

...

Que saudade do meu cabelo roxo!


XD

terça-feira, 22 de maio de 2012

O Barquinho de Papel Vermelho


Havia um barquinho de papel vermelho na banheira.

Ele navegava feliz, imaginando ser aquele o oceano.

Seus horizontes estendiam-se aos azulejos cirurgicamente brancos do banheiro e ao pequeno quadrado azul de céu que aparecia pela janela.

Seu único companheiro era um patinho de borracha amarelo e mudo.

Juntos, subiam e desciam pelas quase ondas e estavam certos de que aquilo era tudo o que se poderia existir.

Um dia, tiraram a tampa do ralo e o barquinho desceu pelo esgoto. Seu amigo patinho de borracha não o acompanhou.

Em seu trajeto pelo submundo, o barquinho descobriu que havia muito mais para se conhecer do que jamais pudera imaginar, e refletiu sobre como pôde ter passado tanto tempo acreditando que o mundo se reduzia a azulejos brancos e um pequeno quadrado de céu azul.

Quando deu por si, porém, já não era mais um barquinho de papel vermelho, era um composto amassado de sujeira marrom.

— E, que coisa!, descobriu-se muito mais vivo assim.

...

No Circo das Contradições Pululantes

Bem-vindo ao Circo das Contradições Pululantes!

Pegue uma pipoca caramelada e sente-se na primeira fila. Mas abra bem o guarda-chuva: os hipopótamos costumam espirrar na platéia enquanto dormem.

Gostaria de uma intensidade bem servida com dois dedinhos de conhaque e uma rodela de quimera enquanto assiste ao espetáculo?

Quando a cortina se levantar, abra bem os olhos e observe a transmutação daquele céu de caleidoscópio.

Veja a bela e imponente Vênus, geminiana como palavras ao vento, pavoneando-se num céu ascendendo Aquário.

Veja a brilhante e profunda Lua, confortavelmente canceriana, sentindo apaixonadamente todos os amores e pesares dos mundos.

Veja a agridoce menina de sabão, vestida de olhares, dançando ciranda com sorrisos e flertando sem pudores com o fracasso.

Veja a si mesmo, assim, sem querer. Neste picadeiro de ilusão todos são o que gostariam de ser.

...

O que você gostaria de ser?

...

Vou ali beber todas as cervejas do multiverso enquanto minha razão é sugada por um buraco-negro e já volto.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Anarquia...?


Sociedade.
Cérebros em conserva manipulados por uma caixinha de imagens.

Faça assim.
Seja assim.
Pense assim.

É, como todo o mundo!

Atenção!

Agora é a hora de todos pensarem contra.

Contra o quê, não importa,
Apenas pensem contra, eu estou mandando.

Diga que é contra, é o que todos estão fazendo!

Aja como se fosse contra,
Aja assim:

Quebre vitrines,
Queime bandeiras,
Grite ‘Fora o Governo’.

Não, você não sabe o que é governo.

Apenas grite.

Idolatre velhos revolucionários.

Não, você também não sabe quem são.

Apenas decore suas palavras mais famosas e use camisetas com suas fotos.

Coloque correntes e blusas com símbolos que você nem sabe o que significam.

Vista-se de um jeito diferente,
É o que todos estão fazendo.

Diga que não quer ser manipulado,
É isso o que eu quero que você diga.

Isso, isso, bom garoto.
Agora você vai ganhar um doce.

...



(São Pedro, dezembro de 2005)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Um sonho de memória alterada

Noite estrelada - Vincent van Gogh

As estrelas tem cor do gosto da água fria.
Sinestesia.

Da crista de uma onda de vapor inebriante posso ver o estrondo das ideias se liquefazendo e correndo em cascata pelos meus ouvidos.
Tudo é amarelo-ouro e alguns poucos grunhidos.

Palavras desconexas passeiam despreocupadamente por um deserto rosa e vermelho, pouco interessadas em se fazerem entender.
Uma árvore escura contra o céu de estrelas repassa toda a sabedoria humana para quem puder o acaso compreender.

Todas as perguntas para todas as respostas de todas as perguntas sapateiam graciosamente no salão de festas do meu cérebro, lutando ferozmente para saírem todas juntas, de uma só vez.
O som então se perde no labirinto confuso da cabeça ébria e trava na garganta, veste um esvoaçante manto de fumaça e mostra toda a completude do mundo em sua mísera pequenez.

...

Em um sonho de memória alterada encontrei os sentidos universais do cosmos e do que poderia vir a ser Deus.
No momento em que acordei, porém, tudo era cinza e fogo e eu não fazia mais ideia de quem eram os filisteus.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Etecéteras


Interessante como as coisas são.
As palavras vêm e vão e pipocam feito bolhas de sabão.

Pensamentos pesados escorrem dos olhos e transbordam ilusões, sentimentos frustrados e algumas decepções.

O duende colorido que mora no jardim sopra seu cachimbo e cabeceia, triste.
A lagarta que morava ao lado desandou, virou alpiste.

Fantasmas do passado alheio surgem e chocam, e os pensamentos que nadavam na corrente perdem a boia e se afogam.

O que se achava certo torna-se incerto, as lembranças estremecem.
A razão tira férias e os sentidos padecem.

Mas o guardião do Castelo, ao ler as notícias, não contem a empolgação: da escuridão se faz a luz, do caos a criação.

A Feiticeira retira a carta do Mago de seu baralho e sorri.
Um oceano de mudanças espreita, as ferramentas estão todas aqui.

...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Breve Consideração Sobre A Criação Divina

Lá estava Deus, alegre e contente, criando todas as coisas que poderiam ser criadas quando, de súbito, um pequeno fragmento de estrela ainda não formada entrou negligentemente pelo buraco do seu nariz.

Espirrando estrondosamente, pensou:

"Isso não vai dar certo..."

E, de fato, não deu.

Espirro Divino fotografado pela Consciência Primordial da Entidade
Equivalente Oposta de Deus auto-denominada J. S. Curtis.

(Em tempo: Teólogos da Universidade Holística da Galáxia de Andrômeda acreditam, fundamentando-se em anos de estudos sobre a composição da cavidade nasal de entidades colaboradoras, ter sido a partir desta violenta e involuntária emissão de ar e muco divino que se formou o que posteriormente seria chamado de Vida, Universo e Tudo o Mais.)