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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Os Duendes da Lua, Capítulo I: O Início

Espécies Mágicas dos Primórdios da Criação entrando em
contato com as Energias Telúricas durante um Conselho de
Segurança Mágica Inter-Temporal.

Nos primórdios da Criação do Universo, quando a Entidade Criativa Que Ficou Entediada E Resolveu Criar Coisas Bacanas Do Nada Para Passar O Tempo tomava uma xícara de chá gelado com dois cubinhos de açúcar para descansar do Grande Feito Grandioso De Todos Os Feitos, algumas gotas de seu chá divino caíram no planeta que hoje nos acostumamos a chamar de Terra, dando origem às famosas, ou nem tanto assim, Espécies Mágicas Dos Primórdios Da Criação.

De todos os seres pertencentes às Espécies Mágicas Dos Primórdios Da Criação, os mais poderosos eram, sem dúvida, os Duendes da Grande Fÿhllirën e seus charmosos cachos nas orelhas. Esta população vivia calmamente nos bosques temperados da atual Irlanda e possuía o dom de conectar-se intimamente com as Energias Telúricas.

Uma vez que os Espíritos da Terra eram os responsáveis por todo o ciclo de vida do planeta - e, se ficassem entediados ou insatisfeitos poderiam resolver causar um terremoto ou confundir as estações do ano só para se divertirem -, o dom dos simpáticos duendes era de extrema importância durante aquele período. Não era apenas devido aos garbosos cachos que saíam de suas orelhas que aqueles possuíam os mais altos cargos do Conselho De Segurança Mágica Inter-Temporal.

O Conselho de Segurança Mágica Inter-Temporal [CSMIT] era uma organização das Espécies Mágicas Dos Primórdios Da Criação que visava a segurança de todos os Seres Mágicos que vivessem no Planeta Terra ou nas proximidades dele, independentemente de qual Era pertencessem. Nele, discutiam-se projetos sobre os Meios de Transporte Mágico, a Ética do Poder Telepático, a Necessidade De Se Criar Regras Para Os Vôos Noturnos, entre muitos outros, enquanto jogavam bocha e bebiam frappuccinos alcoólicos.[1]

Por três Eras tudo correu na mais perfeita e maçante tranquilidade, até que Kashwëhnå, A Estranha, tornou-se rainha do povo da Grande Fÿhllirën. Documentos encontrados relatam que esta era a duende mais bela e mais charmosa da qual se tem conhecimento, com a pele muito alva, sardas púrpuras nas bochechas e cachos cor-de-abóbora cintilantes saindo das orelhas. Tais documentos nos dizem, ainda, que Kashwëhnå dizia ter tido relações sexuais com a Entidade Criativa Que Ficou Entediada E Resolveu Criar Coisas Bacanas Do Nada Para Passar O Tempo, falava sozinha, tinha visões apocalípticas e babava.
(Dizem também que sua baba era púrpuro-berrante e possuía poderes curativos, mas poucos aventuravam-se a ingerir tal pasta).[2]

A Grande Mudança se deu em um Equinócio de Primavera, quando, durante uma comemoração de mais uma crise histérica e alucinada da Rainha Kashwëhnå, surgiu no horizonte a figura pequena e bizarra de Ròhlumm Abdä, o Primeiro Goblin Ûhrk.

Os Goblins Ûhrk, de acordo com pesquisas recentes [3], foram possivelmente os frutos de cruzamentos incrivelmente férteis dos seres mutantes da antiga raça dos Thünnh Åhmee, os Primeiros Anões, com os exemplares da espécie Qözkåc Yuhmeë, os Seres Reptilianos. Tais Goblins possuíam uma pele escamosa de coloração mutável, dedos longos com unhas afiadas e olhos grandes e amarelos. Da antiga e bela raça dos Thünnh Åhmee sobrara apenas as cintilantes barbas encaracoladas. O principal poder dos Goblins Ûhrk era sua voz macia e venenosa que hipnotizava qualquer ser que tivesse ouvidos para suas palavras.

Ròhlumm Abdä, O Primeiro Goblin Ûhrk, tinha em mente um plano diabólico quando despontou no Reino Da Grande Fÿhllirën: Desestabilizar os poderosos duendes, fazê-los perderem seus poderes telúricos, destituí-los dos cargos que ocupavam no CSMIT e instaurar uma Ditadura Diabólica Em Favor dos Goblins Ûhrk.

E foi justamente com esta intenção que o persuasivo serzinho foi procurar pela Rainha Kashwëhnå, a Estranha.

...

NOTAS:

[1] YOHLËG, Stephan Zinngner - CSMIT: Conselho de Segurança Mágica Inter-Temporal ou Apenas Mais Um Clube De Bocha? - Ed. BoaVentura, Zona Escura Da Lua, 252 N. E.

[2] DENDORIAN, Gimena Venceslau (org.) - A Estranha Coroada: Compilação de Manuscritos Fÿhllirënianos Da Era Migratória - Ed. Luneta Verde, Bosque Dos Gnomos Cor-de-Abóbora, 666 N. E.

[3] PACHECO, Salazar Monteÿn & PORLAHZ, Clarabel Ovídia - A Espécie Vilipendiada: os Goblins Ûhrk e suas contribuições para o Reino Mágico - Editora Nonsëhnse, Porão Vermelho, 2010 E. H.

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(Continua AQUI)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Sobre Quando Conheci Os Seres De gravatas Púrpuras

(Aqueles que me conhecem há mais tempo já ouviram esta história. Publico-a aqui, reciclada e reescrita, porque... bem, e porque não? :P)
...

Certa noite fui abduzida por alienígenas. 


Lá estava eu, calmamente fumando um cigarro em minha varanda quando notei algumas luzes piscando ao longe no enevoado céu de São Paulo. Logo pensei ser um relâmpago, mas, bem, relâmpagos são brancos, não púrpuro-berrantes. Talvez fosse um avião. Mas aviões também não tem essa cor. Ou tem?

— Huuuum! — pensei, sorrindo — Quem sabe é uma nave espacial! Seria divertido conversar com uns alienígenas, assim, pra variar... olha, se vocês quiserem vir aqui trocar uma ideia comigo podem vir, viu, eu...  — continuei, em voz alta, fazendo uma piada comigo mesma.

Alguns segundos depois, parada em pleno ar na frente da varanda do meu apartamento, havia uma pequena nave verde-limão em formato de ovo, com faróis de cor púrpura berrante e uma pequena janelinha de vidro de onde algumas formas escuras observavam-me com interesse.

Segundos depois, uma dessas formas escuras abaixou o vidro da nave e apontou-me uma pistola cor-de-abóbora cheia de protuberâncias arroxeadas.

Segundos depois, eu estava inconsciente.

Quando finalmente acordei, vi-me deitada num luxuoso canapé vermelho que ficava encostado à parede de um quarto deveras aconchegante onde havia uma lareira, um tapete verde musgo, estantes de livros e música ambiente.

Pisquei os olhos algumas vezes. Aquilo não era possível, eu devia estar sonhando. Ou alucinando. Como eu havia ido parar ali? Por que eu estava ali? Onde, diabos!, era ali?

Levantei-me cautelosamente e, assim que o fiz, as luzes piscaram todas e o quarto se dissolveu como que num caleidoscópio, dando lugar a uma sala de controle tipicamente alienígena com botões tipicamente alienígenas e seres tipicamente alienígenas vestindo gravatas púrpuras tipicamente alienígenas.

- Ok. Não entre em pânico, Carolina, não entre em pânico... - pensei, prestes a, de fato, entrar em pânico.

Eis, então, que um daqueles seres tipicamente alienígenas virou-se vagarosamente em minha direção, abriu sua enorme boca cheia de dentes fosforescentes e disse:

- Ahn... é... a senhorita gostaria de uma xícara de café?

- !!!

Eu fiquei completamente embasbacada. Estava em uma nave alienígena tendo um contato de quarto grau com seres extraterrestres que estranhamente sabiam falar português e tudo o que eles me disseram foi: a senhorita gostaria de uma xícara de café?!

Quem diabos seriam aqueles caras? Por que eles me trouxeram a bordo de sua nave? Onde estariam indo? Como, por Zeus, eles sabiam falar português?

O estranho ser continuava a fitar-me com seus imensos olhos de bolas de tênis. Seu braço seguia estendido em minha direção com uma xícara de porcelana chinesa na mão. Ai, cacete, e agora, o que cargas d'água eu devia fazer?

Resolvi, então, aceitar a oferta, uma vez que, talvez, uma recusa pudesse ser vista como ofensa por parte dos meus anfitriões. Bebi, então, um pequeno gole do líquido preto, rezando por dentro para que aquilo fosse realmente o que conhecemos na Terra como café. 

De fato, para minha alegria, era café. E não estava nada mal, na verdade, só ligeiramente morno.

- É... - tentei um contato.

- Silêncio! - disse outro Ser, levantando-se e subindo em um banquinho - Saudações, terráquea - continuou - Leve-nos ao seu líder!

Oi?! Leve-nos ao seu líder?! Pohan, como assim? Essa era realmente a última coisa que eu esperava ouvir de um ser alienígena. Talvez eu estivesse em um filme de ficção científica de quinta categoria e não soubesse ainda. Onde estariam as câmeras?

- Hã... líder...? - balbuciei sem saber o que responder.

- É, mina! Líder! Tá ligada aqueles caras que comandam tudo, que são os reis da parada? Os fodões, saca?

Tive que esperar alguns minutos para digerir aquelas palavras, mais especificamente aquele linguajar. Os etês eram manos, rappers, então. Que coisa. Quem diria.

- Ahm... seguinte, mano... - comecei, tentando entrar no clima - a parada é que não têm líderes nessa joça, tá ligado? A não ser que vocês estejam querendo falar com o presidente dos Estados Unidos, saca, ele não é o fodão, manja, mas sempre acha que é.

- Ah... - os seres ficaram um momento em silêncio, sem saber como continuar.

- É o seguinte, terráquea - começou outro deles - Nós viemos em paz...

- Não, não, NÃO! - gritou o que ainda se encontrava em cima do banquinho - Tá tudo errado, não é desse jeito que se aborda um terráqueo! Vocês não se lembram do filme? Não era nada disso, não! E você, Mano Brown - continuou, virando-se para o que falava com vocabulário rapper mano - Será que dá pra parar de falar como os terráqueos do filme estúpido que você não pára de assistir?

Minha cabeça começou a girar. Só podia estar alucinando. Olhei em volta e notei algumas fitas de vídeo jogadas a um canto, cópias dubladas de filmes B de alienígenas e um ou outro vídeo dos Racionais MC’s e do Marcelo D2.

- Certo, isso explica muita coisa - pensei com meus botões - Os etês viram essas fitas, aprenderam o português de mano e tentaram um contato. Ah, é claro. Plausível. E o fato de que eu devo estar completamente alucinada, doida varrida e variada das idéias também.

Os tais seres com gravatas púrpuras entreolharam-se sem saber o que dizer. Eu estava meio zonza. Pensei então que, se estivesse de fato alucinando, o melhor a se fazer era entrar de cabeça na alucinação e deixar que ela se desgastasse por si própria. Ou não. Acontece que a única coisa que eu sabia naquele momento era que não sabia era de nada e, portanto, resolvi ser muito mais fácil entrar na onda dos etês e deixar para perceber que tinha ficado louca depois de descobrir em que maldita confusão eu havia me metido desta vez.

- Aí, pessoal - comecei, juntando os últimos traços de eloqüência que me haviam restado - E então, o que vocês gostariam de mim, exatamente?

- Ah, puxa, achei que fosse óbvio! - respondeu o ser do alto do banquinho - Queremos analisá-la, estudá-la e catalogá-la como amostra do espécime humano!

Epa. Aquilo definitivamente não era nada bom.

- Oi?! Como assim?! - exclamei, indignada.

- Hã... - começou outro dos seres, visivelmente constrangido - não é isso o que extraterrestres fazem?

Eu senti que não iria aguentar aquilo por muito mais tempo. Havia alguma coisa muito, mas muito errada ali, e não era só a minha cabeça. Será que aqueles seres estariam sofrendo de algum tipo de amnésia?

- Então - eu falei - Na verdade, extraterrestres não fazem nada disso, não... Achei que vocês soubessem, uma vez que vocês mesmos são extraterrestres, que esses filmes que vocês têm assistido são só ficção, sabe? Bobagenzinha pra diversão de final de semana, essas coisas...

- Ah, é mesmo? Puxa, sabe, é que estamos passando por alguns problemas de memória ultimamente, você entende? Não conseguimos nos lembrar direito o que foi que aconteceu, só que estávamos aqui nas proximidades desse planeta azul quando perdemos a memória, e aí para passar o tempo resolvemos arranjar alguma coisa para fazer, sabe, foi quando conseguimos essas fitas, e tal...

- Ah, eu entendo perfeitamente - eu disse - Mas é justamente isso o que os extraterrestres de verdade fazem, sabia? Digo, observar os terráqueos de longe, manter o mínimo contato possível, aprender sobre eles à distância...

- Aí, truta, quer dizer então que a galera aqui tava tudo no caminho certo sem saber, mano! - disse o tal Mano Brown - Curti, mina, tu é firmeza! - e continuou, virando-se para o outro - Aí, acho que é melhor mandar a princesa de volta pra casa, né não, véio?

- Só. Desculpe-nos, terráquea. Fique em paz.

E, no segundo seguinte, eu estava em casa mais uma vez.

...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Santuário - Parte III

(Se acabou de cair de pára-quedas, leia aqui a parte um e aqui a parte dois)



O som dos tambores recomeçara no momento em que Rosângela e Gregory colocaram os pés para fora da cabana. Uma cruz vermelha havia sido pintada na porta de madeira. Os dois correram desesperadamente em direção ao bosque próximo, pensando apenas em como poderiam sobreviver àquela monstruosidade surreal. Depois do que lhes pareceu horas de correria às cegas, finalmente o bumbo dos tambores distanciou-se até cessar completamente. Eles estavam completamente perdidos, com apenas a luz da lua a iluminar fracamente as árvores a sua volta.

— E agora?! — gritou Gregory levando as mãos à cabeça e encostando-se a uma árvore. Estava prestes a desmaiar — Por quê você tinha que ter entrado naquela maldita caverna, Rosi?! Por quê?! Agora nós estamos completamente fodidos, presos nesse pesadelo de filme de terror até que alguma coisa monstruosa venha atrás de nós e acabe com a história de uma vez!!

— Ah, cala a boca! Foi você que fez isso acontecer, tinha que ser estúpido o suficiente pra se cortar naquelas lanças? — respondeu Rosângela aos berros.

Os dois ficaram em silêncio.

— Porra, Greg — disse Rosângela abraçando o marido — Não vamos brigar. A gente já tá fodido, só vamos piorar as coisas. Vem, vamos tentar sair daqui.

Caminharam a esmo por um bom tempo, embrenhando-se cada vez mais na mata densa. Silvos de animais noturnos misturavam-se com o resfolegar do vento nas copas das árvores. Olhos brilhantes os observavam do escuro. Então, subitamente, um uivo lancinante pôde ser ouvido e um intenso brilho avermelhado surgiu ao longe na floresta, aumentando de tamanho rapidamente e aproximando-se cada vez mais.

— Rosi... — disse Gregory agarrando o braço da esposa.

O fogo espalhava-se de forma veloz, tomando tudo o que encontrava pela frente. Rosângela e Gregory correram na direção contrária a toda velocidade, acompanhando os muitos animais selvagens que também fugiam do inferno flamejante, tropeçando inúmeras vezes em ramos espinhentos ou buracos de coelhos.

Depois de algumas horas em fuga alucinada, o fogo finalmente ficara para trás, e os dois haviam perdido completamente o sentido de direção. Ainda caminhavam a esmo quando as primeiras luzes da aurora ficaram visíveis por entre as folhagens.

Era dia claro quando chegaram a uma estreita trilha de terra. Estavam cansados, esfomeados, sedentos e esfarrapados. Mas estavam vivos, e era tudo o que importava.

— Acho que essa trilha é a que usamos para ir da aldeia até aquela caverna — disse Rosângela — Será que é seguro voltarmos para a aldeia? — continuou com um arrepio.

— Nós não temos muita escolha, temos?

***

Ao chegarem nas proximidades da aldeia o Sol já estava alto. A luz reconfortante do Sol fazia com que todos os horrendos acontecimentos da noite anterior não passassem de um sonho. No momento em que entraram na aldeia, porém, todas as suas esperanças se desfizeram em pó.

O cenário era desolador. O vilarejo estava absolutamente deserto. As paredes das cabanas haviam sido marcadas com símbolos peculiares e enormes cruzes vermelhas brilhavam, pintadas com sangue, nas portas arrancadas.

— Rosi... — começou Gregory, pálido, apontando para um lado.

Uma fileira com centenas de lanças reluzentes estava disposta em forma de espiral, com cabeças humanas sanguinolentas espetadas morbidamente em suas pontas. Os olhos eram buracos vermelhos e pustulentos, e as orelhas e narizes haviam sido arrancados, contribuindo para a aparência grotesca da cena.

Os conhecidos tambores começaram a soar.

— Nós vamos morrer... — balbuciou Gregory.

— Não, não vamos — disse Rosângela — Eu me recuso a morrer dessa forma. ME RECUSO, ESTÃO ME OUVINDO, ESPÍRITOS AGOURENTOS? — gritou para o céu e abriu os braços — VOCÊS NÃO EXISTEM, SEUS MALDITOS FILHOS DA PUTA! EU NÃO ACREDITO EM VOCÊS, VOCÊS NÃO PODEM FAZER NADA COMIGO! EU NÃO VOU MORRER ASSIM! NÃO VOU! NÃO VOU!

E os tambores emudeceram.

— Não vou... — Rosângela parou — Greg. Os tambores...

— Rosi, o que você fez?

— Eu... não...

— Seja lá o que for, é a nossa deixa pra sairmos daqui! O carro do professor deve estar estacionado na beira da estrada, se conseguirmos encontrar a chave em algum lugar...

Encontraram a chave milagrosamente ao lado dos escombros que outrora foram a cabana de Richard Johnson. Correram até o carro que, por outro milagre, estava incrivelmente intacto.

— VAI! — gritou Rosângela pisando no acelerador, mas o carro insistia em não funcionar — VAMOS!!

O som dos tambores recomeçara. Parecia estar se aproximando.

Finalmente o carro pegou. Saíram cantando pneu, distanciando-se da aldeia e do som dos tambores, até finalmente chegarem ao aeroporto.

****

— Ah! Nem acredito que estamos em casa — disse Gregory, dois dias depois, espreguiçando-se em seu sofá — E vivos!

— Nem me fale — respondeu Rosângela — Talvez no fim nós estivéssemos apenas sonhando.

— Se eu sonhasse com uma coisa daquelas nunca mais perdoaria o meu subconsciente.

— Vou buscar o jornal — disse a doutora, abrindo a porta — Greg... — continuou, empalidecendo.

Uma cruz vermelha havia sido pintada com sangue em sua porta. E o som dos tambores recomeçava...

...

FIM.

domingo, 6 de maio de 2012

O Santuário - Parte II

(Se não leu a parte I, clique aqui)


— Ah, essa não! Cadê a lanterna?

Com cuidado redobrado, desceram os últimos degraus. Quando seus pés os avisaram de que haviam chegado ao final da escadaria, puseram-se a procurar a lanterna, apalpando o escuro.

— Ugh! Que fedor! — disse Gregory tampando o nariz e tateando o vazio em busca da lanterna — Ai! Acho que me cortei!
— Achei! — Disse Rosângela ligando a lanterna.
Mas seria melhor tê-la deixado apagada.

O aposento era úmido, com correntes enerrujadas pendendo do teto e ratos e besouros em decomposição acarpetando todo o chão. Lanças e espetos cujas pontas atravessavam restos de cabeças humanas acomodavam-se a um canto, enquanto no outro centenas de esqueletos e corpos mutilados jaziam de forma sombria. Nas paredes, inscrições de símbolos estranhos pareciam ter sido pintadas com sangue, e do lado oposto ao da escadaria, presa à pedra por ganchos de ferro, uma enorme coroa de ouro e diamantes cintilava agourentamente sob a luz da lanterna.
— Rosi... — sibilou Gregory — Acho que me cortei naquelas lanças... estou sangrando!

— Vamos embora daqui...

Subiam lentamente os primeiros degraus da escadaria quando, então, uma gargalhada demoníaca ecoou pelas paredes de pedra.

Rosângela e Gregory estremeceram, sentindo as entranhas congelarem e o coração acelerar como se quisesse abrir um buraco no peito e fugir para o mais longe possível dali. E então puseram-se a correr. Correram como se um diabólico exército de criaturas infernais estivesse marchando atrás deles e suas vidas dependessem da velocidade dos seus pés – porque, naquele momento, talvez elas de fato dependessem.

Assim que chegaram ao topo da escada e saíram para o salão com os pilares, a parede se fechou novamente com um estalo, e os dois continuaram correndo desesperadamente sem olhar para trás por sequer um instante. Voltaram para a cabana sem nem ao menos esperar pelo resto da expedição.

— Caramba! — exclamou Gregory arfando quando chegaram ao alojamento — O que diabos era aquilo?!

— Não sei — disse Rosângela com uma expressão fixa — Acho que era uma tumba, ou uma masmorra...

— E o que foi aquela risada?! — falou Gregory apertando as mãos.

— Deve ter sido coisa da nossa cabeça, Greg. Ficamos perturbados pra burro quando vimos aquelas correntes e aqueles — ela estremeceu — corpos. Deve ter sido isso. Tem que ter sido isso. Não pode ser outra coisa. Porque, né?, essas coisas não existem. Não podem existir. Não... — ela balançou a cabeça e olhou para ele — Ai, Greg, você tem que limpar esse machucado!

— Ah, é mesmo! Com tanta adrenalina tinha até parado de doer. Devo ter me cortado em alguma daquelas lanças novas e limpinhas que estavam lá. É melhor eu lavar isso logo antes que infeccione, dê uma gangrena e eu morra de tétano.

***

À noite, Rosângela e Gregory jantavam um ensopado qualquer em sua cabana.
Agora, sério, Rosi — começou Greg — Aquilo que aconteceu hoje mais cedo não foi produto das nossas mentes perturbadas. Meu cérebro nunca seria capaz de criar uma gargalhada tão assustadora quanto aquela.

— Ah, Greg, de novo isso? Não quero mais pensar sobre esse assunto. O cheiro da decomposição deve ter feito a gente alucinar, sei lá. Ou vai dizer que você prefere acreditar que eram zumbis hindus doidos para comer nossos cérebros?

— E se fossem?

— Você anda assistindo muito Walking Dead. Em todo o caso, zumbis não gargalham.
Neste momento, ouviram três fortes batidas na porta de madeira do bangalô.

— Quem será a essa hora? — perguntou Gregory, tenso.

— Relaxa, Greg, zumbis não batem na porta antes de entrar — riu Rosângela — Quem é? — perguntou mais alto.

— É o professor Richard Johnson — disse uma voz rouca do lado de fora.

— Ah, o que esse cara de fuínha quer agora? — disse Gregory em voz baixa.

O professor era o chefe da expedição. Um senhor baixo, magro, com uma cara comprida e um nariz pontudo. Muito míope e muito entediante, porém muito inteligente também. E já havia estado naquela região da Índia aprofundando suas pesquisas pelo menos umas oito vezes antes daquela.

— Boa noite — disse ele quando entrou — Como está o ensopado?

— Ah, está gostoso. As cozinheiras daqui são muito boas. O senhor gosaria de jantar?

— Não, obrigado. Tenho uma pergunta a fazer. Vejam, eu não queria parecer grosseiro, por isto perguntei sobre o ensopado. Mas a pergunta que quero fazer não é essa, sobre o ensopado. Dizer banalidades ajuda a quebrar o gelo, é o que dizem por aí. Não sou muito bom com essas coisas. Fiz cursos, até. Mas não sei lidar com pessoas, especialmente vivas.

— Hum, certo, professor. O senhor gostaria de saber...? — cortou Rosângela.

— Sim. Digam-me: O que aconteceu na gruta hoje de manhã para que vocês decidissem voltar sem a expedição?

Gregory e Rosângela entreolharam-se.

— Bem, o Greg se machucou — começou Rosângela — E achamos melhor vir tratar o ferimento dele aqui.

— Deixe-me ver este ferimento — disse o professor.

Gregory retirou as bandagens que envolviam sua mão e mostrou ao professor seu machucado recém-adquirido.

— Este ferimento se parece com os encontrados nos vestígios mortais de um antigo grupo humano que costumava viver nesta região. Estranho, estas lanças utilizadas por eles não existem mais hoje em dia. Ou existem? — Richard Johnson lançou-lhes um olhar penetrante por trás dos grossos óculos de aros pretos — Essas lanças são envenenadas. Você está morrendo, Gregory.
— O QUÊ? NÃO! COMO...? — gritou Gregory.

— O que você está dizendo, professor? — perguntou Rosângela arregalando os olhos e abraçando seu marido — Não, veja, nós encontramos uma sala isolada na gruta, hoje, que tinha essas lanças, uma coroa e esqueletos e...

— Ah, sim — disse o professor — Eu havia imaginado. Acalme-se, Gregory, você não vai morrer, pelo menos não envenenado pela lança. Só disse isto porque precisava que me contassem exatamente o que aconteceu.

— SEU VELHO FILHO DA PUTA! — gritou Gregory dando um soco na cara de Richard.

— De qualquer forma — disse o professor, limpando o sangue da boca — vamos todos morrer.

— Como assim? — perguntou Rosângela.

— Vocês abriram a Tumba Sagrada, onde os antigos povos hindus aprisionavam os maus espíritos e os de mau coração. Vocês... — nesse momento, parou. Sons de tambores ecoavam nas paredes, cada vez mais altos.

— Que porra é essa? — berrou Gregory dirigindo-se à janela.

— São os antigos tambores Hindus usados em rituais de sacrifício — respondeu Richard começando a balançar-se freneticamente para frente e para trás. Linhas azuladas em forma de círculos começaram a despontar em sua pele ao redor dos olhos, alongando-se por todo o rosto.

— O que... o que é isso no seu rosto, professor?! — perguntou Rosângela em um sussuro.

— Meu rosto... — começou Richard tocando os olhos. As marcas agora enrolavam seu pescoço, colo e braços. Os tambores ficavam cada vez mais próximos, cada vez mais altos, cada vez mais desesperadores. — É o começo do fim.

— Vou ver que merd... — disse Gregory abrindo a porta. Mas subitamente o som dos tambores cessou, mergulhando a aldeia num silêncio ensurdecedor — Isso é pior que os tambores... — sussurrou.

— É... em breve, agora... — balbuciou o professor, tremendo nervosamente, apertando os braços contra si.

— O que aconteceu? — perguntou Gregory — O que ESTÁ acontecendo?

— Vocês — o professor levantou-se de repente — VOCÊS! VOCÊS LIBERTARAM OS ESPÍRITOS AGOURENTOS DE OUTRORA!

— O quê?
— DEPOIS DE MILHARES DE ANOS ENCLAUSURADOS, ELES VOLTARAM PARA SE VINGAR! — Richard virou-se bruscamente para Gregory, agarrando-lhe o braço — E A CULPA É SUA!

— Minha?!

— O SEU SANGUE! O SEU SANGUE DEU-LHES A VIDA NOVAMENTE!

— Professor, por favor, acal...

— NÃO! O SANGUE DELE DESPERTOU OS ESPÍRITOS AGOURENTOS DE OUTRORA! ELES ESTÃO VOLTANDO PARA ME PEGAR, PARA PEGAR TODA A HUMANIDADE! VEJAM AS MARCAS!

— Professor, acalme-se, eu...

— ACALMAR-ME? FUI EU QUEM APRISIONOU O ÚLTIMO SER INFERNAL, O MAIS PODEROSO DE TODOS, EXATAMENTE CINQUENTA ANOS ATRÁS! — o professor caiu no chão, retorcendo-se de forma inumana — AGORA ESSE IMBECIL OS SOLTOU, E ELE VIRÁ ATRÁS DE MIM! E DE VOCÊS! E DE TODA A HUMANIDADE!

Os tambores recomeçaram. Richard gemia e contorcia-se caído no chão de terra. Gregory, histérico, gritava palavrões atropelados e esmurrava uma parede. Rosângela sentava-se na cadeira e olhava fixamente para o professor, em choque.

— Greg... — começou a doutora — Greg, acho melhor..

O professor caído começara a transformar-se em qualquer coisa absolutamente inexplicável. Seu cabelo grisalho caía em tufos no chão enquanto pequenas elevações cônicas surgiam em seu crânio. Sua pele adquirira uma coloração alaranjada e os círculos azulados aprofundavam-se como sulcos negros na carne. Bolhas cinzentas pipocavam em suas costas.

— VAMOS SAIR DAQUI! — berrou Gregory puxando a esposa pelo braço e batendo a porta da cabana atrás de si.


(Continua...)

O Santuário - Parte I

(Minha primeira e, por enquanto, única história de "terror", escrita nos idos anos de 2006. Publico-a aqui em três capítulos, totalmente revisada e renovada.)



Era um dia nublado e abafado. Doutora Rosângela Friburgo lia distraidamente seu jornal quando foi interrompida pela campainha.

— Carteiro! — informou uma voz do lado de fora.

Ao pegar a correspondência, Rosângela notou que, entre as contas e propagandas habituais, havia também uma carta maior, com o símbolo do museu nacional, endereçada a ela.

Rosângela era doutora em arqueologia, acabara de especializar-se em procedimentos e técnicas de escavação e trabalhava há quase dois anos no museu nacional. Ganhava bem, tinha uma confortável morada em Londres, uma casa de veraneio em Portugal e um sonho infantil inconfesso de viver aventuras como as enfrentadas pelo personagem Indiana Jones. Foi sua paixão por esta ficção que a fez decidir seguir a carreira da arqueologia, mas se qualquer um de seus colegas de universidade levantasse esta hipótese ela a negaria até a morte.

— Oh! — exclamou ao ler a carta — Uma expedição? À Índia? No mês que vêm?!

Após ficar alguns instantes com o olhar perdido imaginando-se fugindo de pedras gigantes e múmias-zumbis, correu para contar a novidade ao marido.

— Legal. — respondeu ele.

— Legal? — disse Rosângela — É maravilhoso! Já fiz algumas escavações na Índia antes, meu mestrado foi sobre isso, lembra?, mas esta é justamente a oportunidade para colocar em prática minha tese de pós-doc que... — o marido parecia não estar prestando a mínima atenção — Poxa, Greg. Um pouco de consideração aqui, sim?

— Mas eu tô prestando atenção — disse ele brincando com o controle remoto da televisão.

— Sei. Bom, a viagem é toda paga pelo museu e eu posso levar um acompanhante, mas se você não quiser ir eu chamo a minha irmã.

— Quê? — ele levantou-se num pulo do sofá — Tudo pago? Ah, Rosi, por que você não disse logo? Arrume as malas! Vamos viajar de graça!

****

— Ai! Quanto mosquito!

Gregory não agüentava mais aqueles bichinhos barulhentos zumbindo em seus ouvidos e deixando suas pernas embolotadas e em carne-viva. Arrependera-se amargamente de ter acompanhado Rosângela no momento em que botou os pés na aldeia onde se estabeleceriam durante a viagem. Fazia calor, havia milhares de mosquitos do tamanho de elefantes e os colegas de sua esposa eram professores doutores universitários arrogantes e sem um pingo de senso de humor.

Estavam havia dois dias enfiados num casebre minúsculo, cheio de rachaduras e sem água encanada em algum lugar próximo a uma aldeia à noroeste da Índia que alguém lhe disse ter o nome de Ellora. E fazia calor, muito calor.

— Devia ter imaginado — continuou ele, limpando o rosto com um lenço e espantando meia dúzia de mosquitos — Pago pelo museu... Rá! Deve ter sido o lugar mais barato que arranjaram, esses pilantras.

— Ah, amor, não reclama — disse Rosângela — Essa aldeia é a mais próxima do sítio onde estamos escavano. E aqui é tudo tão fascinante! Você viu aquela gruta que encontramos por acaso mais ao sul, hoje? Os entalhes nas pedras são definitivamente magníficos!

— Magníficos, sim. Magnífico seria poder tomar um belo banho de hidromassagem, ligar um refrescante ar-condicionado na potência máxima e matar com raios-laser milimetricamente programados esses malditos mosquitos filhos de uma égua.

Com um muxoxo de cansaço ele deitou-se na cama feita com bambus e, pensando em refrigeradores de ar industriais e matadores de moscas gigantes finalmente adormeceu.

No dia seguinte Rosângela acordou bem cedo, fez um café forte com o pó que trouxera de casa e convenceu o marido a levantar-se também.

— Hoje vamos explorar aquela gruta que achamos ontem — disse ela, empolgada, enquanto bebia seu café — Pode ser que tenhamos encontrado um lugar em que nenhum humano colocou os pés desde o século oito!!

— Que bom — respondeu Gregory, irônico, esfregando os olhos.

— Você pode ficar aqui, se quiser.

— Ah, obrigada, mas vou com vocês. Prefiro a companhia daquele cara de fuínha do Professor Johnson a ser o prato principal para o almoço dos mosquitos. E eu não fui muito com a cara desses nativos. Parece que eles estão observando por dentro da minha alma — continuou quando saíram para a rua.

Juntaram-se ao restante da expedição e rumaram em direção à caverna. Ela ficava a pouco mais de uma hora de caminhada da aldeia, escondida por uma alta vegetação. Encontraram-na por acaso na tarde anterior, quando os dois estagiários graduandos em História afastaram-se do sítio para, bem, utilizarem-se de algumas substâncias psico-ativas e tropeçaram em uma pedra entalhada. A princípio achou-se que os garotos estavam equivocados, porém Rosângela fez questão de observar por si própria aqueles entalhes e encontrou a entrada da caverna. Como já começava a escurecer decidiram ser mais sensato deixar a exploração para o dia seguinte.

Ao chegarem, Rosângela, e até mesmo Gregory, ficaram boquiabertos. A gruta, a qual parecia pequena por fora, era bem maior por dentro do que o esperado. Havia deuses e animais esculpidos na pedra bruta por todas as paredes e grossos pilares de pedra com inscrições antigas entalhadas milhares de anos atrás.

À volta de um destes pilares Rosângela notou algumas inscrições peculiares e, deixando que o resto do grupo seguisse em frente, demorou-se mais alguns instantes a fim de analisar melhor o que elas poderiam significar.

— Curioso... é... curioso... realmente muito curioso... curiosíssimo...

— Rosi, será que você poderia fazer o favor de me dizer o que dabos é tão curioso? — perguntou Gregory bocejando.

— Essas inscrições... não batem com as do resto do santuário... parecem mais antigas. Veja, há alguns fungos fossilizados aqui que...

— Ah, claro, fungos fossilizados. Certo. Bom, Rosi, enquanto você troca uma ideia com estes fungos anciãos eu vou me sentar aqui um instantinho, ok? Minhas pernas doem, eu não sou mais um garoto de dezoito anos que...

Quando ele encostou-se à parede próxima do pilar, algo fez mover um tipo de passagem, revelando uma escadaria comprida e sem final visível.

— Ai, caramba! Não fui eu! — disse Gregory afastando-se rapidamente.

— Uau! — disse Rosângela dando uma espiada lá dentro — Onde será que isso vai dar?

— Eu não sei, Rosi, e acho que não quero saber — disse Gregory com voz esganiçada — A gente precisa encontrar os outros, e se os meninos do estágio estiverem fumando de novo?

— Ora, vamos, Greg! — respondeu Rosângela, ligando sua lanterna — O que podemos encontrar aqui embaixo pode ser muito melhor do que qualquer psico-ativo — continuou, descendo a escada vagarosamente.

— Ai, Rosi. Você e essa mania de Indiana Jones — disse Gregory descendo rapidamente atrás da esposa.

Quando estavam nos últimos degraus, a lanterna escorregou das mãos dela e apagou-se, deixando-os no mais completo e definitivo breu.

(Continua aqui)