terça-feira, 10 de setembro de 2013

Noite: o espetáculo.



As estrelas estrelam no céu, a Lua sorri.
O espetáculo de panos escuros e movimentos imperceptíveis tem início:
O sorriso perdido da noite, o lustro do lusco-fusco do anoitecer...
Os astros saúdam saúde, saudade.
Piscam marotos e migram:
O quê?, pensa a humanidade.

...

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Ser, ter.

Ter é bem melhor do que ser?
Ser é bem melhor do que ter.
Ser o quê, ter o quê?
Ter que ser, ser o que ter, ter o que ser, ser quem ter.
O ser que quer ter para parecer ser.
Para parecer? Para aparecer!
Simples ser, por ser.
Só ser, sem ter que ter ou ser, simples ser.
Ter o ser.
Ou ser.

...

(E que diabos estou tendo dizer?)

terça-feira, 23 de julho de 2013

Pessoas-padrão


Criança, o mundo inteiro pela frente.
Ideias, cores, luzes.
Descobrimentos, aprendizados.
Interesses.
Tudo o que pode ser e pode ser:
Criações.

Adolescente, a rebeldia toma forma.
Ideais, cores, sombras.
Descobrimentos, aprendizados.
Ideologias.
Tudo o que pode ser e pode mudar:
Provocações.

Adulto, a rotina reclama sua vez.
Metais, cinzas, contas.
Cobranças, propagandas.
Raízes.
Tudo o que tem que ser e tem que ser:
Aceitações.

Velho, o cansaço toma conta.
Sais, cinzas, remédios.
Lembranças, propagandas.
Desinteresses.
Tudo o que podia ser e que não foi:
Assombrações.

...

(É sempre bom se perguntar se a criança que você foi um dia gostaria de ser o adulto no qual você se tornou.)

terça-feira, 14 de maio de 2013

Brahduhauh POidoiaahrj GGGadj.

Queria escrever, mas não consigo.
Preciso de pílulas concentradas de palavrinhas bem amarradas.

NÃO ENTRE EM PÂNICO!

O que importa é que o arco-íris caleidoscópico está chegando para nos levar de volta. Não se esqueçam de suas bagagens de mão - porque louco é aquele que se considera são.

OU NÃO.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Era uma vez #10

Era uma vez uma vez que era.
Era, até que uma vez não foi.
E foi.
Fim.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Apatia


Acordou aquele dia como sempre acordava, bebeu seu café preto como sempre bebia, comeu duas torradas como sempre comia.

Entristeceu-se por nada, como sempre acontecia.

Vestiu-se pro trabalho como sempre se vestia, caminhou pela rua como sempre caminhava, conversou com seu vizinho como sempre conversava.

Imaginou-se em outro mundo, como sempre imaginava.

Chegou ao escritório como sempre chegava, sorriu para os colegas como sempre sorria, fez o seu serviço como sempre fazia.

Sentiu-se miserável, como sempre se sentia.

Saiu às seis da tarde como sempre saía, jantou no Japonês como sempre jantava, chegou em casa às oito como sempre chegava.

Pensou em se matar, como sempre pensava.

Tomou os seus remédios como sempre tomava, bebeu goles de uísque como sempre bebia, distraiu-se com a tevê como sempre se distraía.

Morreu aquela noite, como sempre morria.

(E, nos dias seguintes, tudo se repetia.)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Escrita aleatória ligeiramente (?) psicodélica


Estrela. Guimba. Poente. Jacaré. Dândi. Caudaloso. Filho.

DROMEDÁRIOS!

Castelos de cera derretendo-se em pequenos cubos de açúcar cristalizado são quase, mas não exatamente, completamente diferentes de uma xícara de feijão com arroz, bife e batatas-fritas.

Os sapatos vermelhos da senhora de frigideira na cabeça não podem levá-la a lugar algum: nenhum deles sabe qualquer canção instrumental cantada pelos Rolling Stones.

A margarida esqueceu-se de que um dia foi rainha e de que tinha uma bergamota de estimação - mas os buracos-caleidoscópicos que se abriram em Galápagos nada tinham a ouvir com isso.

ORNITORRINCOS!

Mamão. Jaguatirica. Sílfides. Chorumelas. Taumaturgo. Polvo. Milho.

(E o que diabos carregando cargas d'água a joaninha amarela de óculos espelhados queria me dizer?)

...

Quarentaedois.

terça-feira, 5 de março de 2013

Esperando o ônibus

Esperando o ônibus, Cecília acendeu um cigarro. Sabia que não devia, que custava caro, que o benefício era nenhum. Mas, ainda assim, acendeu-o e tragou-o profundamente, mentindo para si mesma que seria o único.

Cecília esperava o ônibus como esperava a vida.

Não que não fizesse planos, ah!, como os fazia. Se fizesse uma lista de todos os objetivos que já tivera na vida seria preciso que uma floresta inteira fosse feita papel para abrigar seus sonhos em tinta. Planejara viajar, estudar culturas exóticas, conhecer outras civilizações, escrever um livro, ser atriz, tocar piano, ser professora, falar russo, aprender física quântica, plantar uma árvore e até casar-se e ter um filho. Planejara tantos caminhos, tantas promessas, tantos sonhos!

Mas era muito fácil imaginar. Sempre tivera uma imaginação fora do comum. Gostava de criar mundos fantásticos e realidades alternativas para passar o tempo. No plano das ideias tudo era sempre tão colorido, mágico, bonito! Bastava colocar os pensamentos em prática, porém, para que o ímpeto inicial se desvanecesse em uma nuvem cinzenta de cotidiano-sempre-igual-a-sempre e os outrora tão interessantes planos virassem apenas divagações. Nestas horas, a Rotina, aquela séria e sóbria senhora muito metódica e muito virginiana, instalava-se imediatamente em sua vida, descolorindo por completo o seu caleidoscópio de intenções.

E então esperava pacientemente pelo próximo final de semana, pelo próximo semestre, pelo próximo ano. Esperava desinteressada pela próxima chance de provar a si mesma que as coisas poderiam ser diferentes. Ou menos desinteressantes.

Ali, naquele ponto de ônibus, fumando seu primeiro cigarro do dia, percebeu que estava, de fato, farta de esperar. Cansara-se de viver apenas de sonhos. A partir daquele dia, daria uma grande reviravolta em sua vida! Colocaria em prática seus planos, desta vez. Estava decidia. Só precisava, agora, estabelecer qual deles seria o primeiro.

Quem sabe aquela viagem que sempre sonhara em fazer? Sim, essa ideia seria muito boa para ser colocada em prática em primeiro lugar. Mas, para isso, seria necessário ter algum dinheiro. Não sabia se o que possuía era o suficiente. Então, que tal trabalhar em alguma coisa extra para juntar esse dinheiro? Era muito boa cozinheira, poderia, sim, fazer alguns quitutes e vender no intervalo das aulas da faculdade. Mas para isso, também, ela precisaria dispor de algum tempo para poder cozinhar. E tempo era algo que estava cada vez mais escasso, especialmente depois de ter aceitado aquele estágio no escritório, alguns meses atrás. Estágio este, aliás, do qual já estava terrivelmente cansada.

"Vou largar essa bosta de emprego, então" pensou. "Aí terei bastante tempo para me dedicar aos meus bolinhos."

Sim, mas aí não teria mais o salário com o qual se acostumara e, consequentemente, vender bolinhos não seria mais uma fonte extra de renda, mas sua única fonte de renda. E então não poderia viajar. E então...

E então o cigarro apagou, o ônibus chegou e seus projetos foram, mais uma vez, devidamente guardados na gaveta empoeirada da vida cotidiana.

...

(Cecília continua esperando o ônibus da vida até hoje.)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Era uma vez #9

Era uma vez uma casinha feita de doces.
Um dia a Magali veio e comeu-a.
Fim.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Poemeto sobre minha visita a uma maravilha da humanidade

Uma longa caminhada.
Os passos cansados,
A respiração pesada,
Os pés inchados.

Uma chuva inesperada.
A falta de ar,
As roupas molhadas,
O frio de arrepiar.

A chegada ao topo,
A névoa que se esvaiu.
Um suspiro rouco:
Machu Picchu, PUTAQUEOPARIU!


Machu-Picchu


ATENÇÃO:
O Ministério Da Normalidade Adverte: Viajar causa dependência física e psicológica.

ATENÇÃO:
O Ministério Da Satisfação Adverte: Vicie-se!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O Gato No Telhado

(A pequena eu-mesma de doze anos escreveu este texto em algum dia de verão dos idos anos 2000, em Águas de São Pedro. Encontrei-o abrindo aleatoriamente algumas gavetas velhas de lembranças nostálgicas e ele grudou no meu cérebro implorando para ser compartilhado.)


Era um gato gordo, feio e esquisitão.
Mas também era amigo e muito brincalhão.

Seu nome era Malhado
E vivia no telhado
Sempre que chovia ficava todo molhado

Gostava de sair pelo salão
Sempre arranjando confusão.
Até que um dia, então,
Escorregou e caiu no chão.

Ficou todo envergonhado,
Com o cabelo embraçado,
Até mesmo engraçado!

Todo mundo riu
E o gato se sacudiu
Deu as costas pra platéia
E foi ver a Tetéia

Tetéia, sua amiga,
Era muito esquisita.
Comia ratos no telhado
Achando que era grelhado.

Mas tudo bem!
Os dois eram nota cem!

Eram, não,
Ainda são!

E continuam sempre arranjando confusão.

...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Greve de Palavras

Eu só quero poder escrever!

Quero beber da fonte das palavras irreais.
Quero rasgar as amarras literatais e não literais.
Quero amarrar minhas ideias em frases teatrais.

Tenho muitos personagens esperando pra viver!

...

Existem coisas que a Inspiração não compra. Para todas as outras existe uma Vontade de Escrever.





(Em Tempo: Rotina, sua egoísta, libere minhas palavrinhas!)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Comunicado: Férias

Os Duendes Espaciais Ordenhadores Das Vacas Sagradas Da Via-Láctea vêm por meio desta notificar que a autora dos textos disso que vossas senhorias terráqueas conhecem por blog acaba de voltar para terras tupiniquins após passar por várias aventuras em outros ambientes latino-americanos.

Assim que Caranguejo Excêntrico conseguir reacostumar-se com o insosso Cotidiano e recuperar-se das bolhas nos pés, demais atualizações ocorrerão.

Fiquem em paz.

Atenciosamente,

Abelardo Policrômico Neves
(Duende Espacial Ordenhador das Vacas Sagradas da Via-Láctea, Ordem 7, N° 1248856)


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

"Crise de Natal"


No meio da sala, sentada de pernas cruzadas e iluminada pela inconstante luz colorida dos pisca-piscas, a moça fitava inexpressiva a árvore de Natal. Segurava nas mãos finas de unhas bem feitas uma garrafa de champanhe pela metade e um cigarro de filtro branco apagado. Sentia-se entorpecida. 

Era Natal, mais uma vez. E, mais uma vez, passaria esta data sozinha.

Completamente sozinha.

Não sabia por quê diabos sentia-se tão mal. Ela mesma sempre dissera a quem se propusesse a ouvir que o Natal não passava de mais uma data como outra qualquer, especial apenas para as lojas de brinquedos e comércios em geral que faturavam milhões com a propaganda consumista do tal do Papai Noel.

Mas todo ano era a mesma coisa. Dezembro se aproximava e, com ele, uma nostalgia gigantesca que fazia inclusive com que ela decorasse seu apartamento com a temática natalina.

Talvez esse sentimento fosse culpa da saudade que sentia dos Natais da sua infância, pensou ela, quando tudo era mais colorido e tinha gosto de caramelos açucarados.

Lembrava-se da confusão da família reunida, das conversas animadas, dos primos correndo para lá e para cá no quintal enorme da casa da avó.

Mas a avó morrera, os primos cresceram, os desentendimentos vieram e ela se viu passando as festas, ano após ano, cada vez mais sozinha.

Cada vez mais sozinha.

E seu temperamento também não ajudava, de fato. Precisava, mesmo, ser tão rude com qualquer um que ousasse se aproximar? Passara por bons bocados quando mais nova, de fato, e erigiu muralhas de sarcasmo e arrogância para separá-la da dor. Mas agora via-se presa atrás dessa fortaleza costumeira e sequer tinha ânimo para tentar dela se desvencilhar.

Suspirando, bebeu outro gole de champanhe.
(Era sua terceira garrafa.)

“Esse ano será diferente”, pensou ela. “Vou ser menos egoísta. Vou me aproximar mais das pessoas. Vou voltar a falar com a minha irmã. Vou...”

E então um riso seco, irônico, rasgou-lhe os lábios. Era sempre assim, todo santo ano a mesma coisa. A “Crise do Natal”. Ficava melancólica, refletia languidamente sobre sua vida, chegava às mesmas conclusões que então chegara, planejava mudanças, embebedava-se. E, no ano seguinte, continuava exatamente igual. Arrogante, sarcástica, egoísta. Sozinha.

Abriu outra garrafa de champanhe e bebeu quase todo o conteúdo de uma vez só, pensando que daquela vez seria diferente. No ano seguinte ela seria, sim, uma nova pessoa e aquela seria realmente a sua última crise de Natal.

Adormeceu ali mesmo, no meio da sala, rodeada de garrafas vazias e cigarros apagados.

...

No dia seguinte, comprou um cachorro.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Comunicado: Procura-se Uma Inspiração

Prezados leitores,

Minha Inspiração já começou sua farra de Ano Novo e está por aí, provavelmente jogada em alguma sarjeta, bêbada demais para sequer cogitar a possibilidade de voltar para casa.

(Ou seja: estou passando por um terrível período de bloqueio criativo.)

Peço desculpas aos frequentadores assíduos - se é que estes existem - e solicito encarecidamente que, caso algum de vocês aviste uma musa de cabelos coloridos e óculos escuros entornando garrafas de vinho e gritando impropérios linguísticos no meio-fio, por favor, mantenha uma distância segura da mencionada figura e, assim que possível, entre em contato com esta que lhes escreve.


Atenciosamente,
Caranguejo Excêntrico.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A Caminhada (ou A Senhora De Vestido Amarelo)

A senhora de vestido amarelo preparava-se para sair. Calçou demoradamente seus sapatos marrons, procurou um chapéu que combinasse com o cinto, deu comida para seus três gatos gordos e apanhou as chaves de casa.

Estava entediada. Havia caído feio na cozinha semana passada por causa de um tapete mal colocado e o médico precisou proibi-la de sair de casa por pelo menos dez dias. Batera os joelhos. Graças a Deus não quebrara nada, mas deveria ficar de repouso e não abusar das juntas até que suas pernas não estivessem mais se parecendo com dois rolinhos gordos de massa de pão.

Olhou para as pernas. Ainda estavam bem inchadas, mas a dor era bastante suportável. E, de qualquer forma, não aguentava mais ficar dentro de casa. Sua única distração naquela semana havia sido caminhar do quarto até a sala, cansar-se terrivelmente com os programas televisivos, tentar sem sucesso aprender a usar o tal do computador com internet que sua sobrinha havia lhe dado e resmungar com os seus gatos.

Acordou aquele dia decidida a sair para caminhar. Visitaria sua amiga Selma, que vendia flores em frente ao cemitério. Conversariam sobre o tempo, a família e a morte e depois tomaria um café na padaria do seu Félix. Ele lhe contaria todos os acontecimentos dos últimos dias e ela voltaria alegre pela rua dos pinheirinhos bonitinhos.

Olhou pela janela. Talvez chovesse. Era bom levar um guarda-chuva.

O telefone tocou. Contrariada, a senhora atendeu-o. Era sua filha. Ligou para perguntar se estava tudo bem, se as pernas ainda doíam muito, se ela estava repousando como o médico mandou. Sim, não, sim. Não, ela não iria sair por aí batendo perna como sempre. Sim, sim, um beijo, tchau.

"Filhos, comportam-se como se fossem eles os pais, depois que ficamos velhos", pensou ela, rindo.

Trancou a porta da frente assobiando uma valsinha de quando era adolescente e esperou o elevador por quase cinco minutos, até lembrar-se de que o aparelho estava quebrado mais uma vez.

Aquilo seria um grande empecilho para sua caminhada. Será que ela conseguiria descer os três andares de escadas até o piso térreo? Pior: será que ela conseguiria subir de volta os três andares de escada até o seu apartamento?

Pensou por alguns instantes e deu de ombros. Faria uma parada estratégica na portaria quando chegasse, sentaria um pouco nos sofás para visitantes, conversaria com as faxineiras e depois subiria, descansada.

Desceu as escadas reclamando um pouco das pernas e muito do síndico e disse bom dia ao porteiro do prédio, que a ignorou, como sempre. Quando abriu as portas de vidro do hall de entrada, porém, notou que chovia. Torrencialmente. E ela havia esquecido o guarda-chuva. Não fosse o telefonema da sua filha para distraí-la, ela teria se lembrado de apanhá-lo. Agora não conseguiria subir para buscá-lo, suas pernas não aguentariam. E ela não confiava naquele porteiro novo para pedir a ele que entrasse em sua casa.

Frustrada, a senhora de vestido amarelo sentou-se no sofá para visitantes e apoiou a cabeça nas mãos. Olhou em volta. Ninguém com quem conversar, a não ser o porteiro novo que fazia questão de fingir que ela não estava ali.

Com um suspiro, pôs-se a observar a rua.

Havia um menino no meio da chuva. Era mais um borrão molhado e colorido do que um menino. Parecia ser o filho da Roberta, do duzentos e dois. E ele corria pela rua, pulava nas poças de água, abria os braços. E sorria. Sorria alegremente aquele sorriso que somente as crianças sabem sorrir.

A senhora levantou-se bem devagar e aproximou-se da soleira da porta. Lembrou-se de quando era menina e morava no sítio. Em dias de chuva de verão, ela e seu irmão costumavam apostar corrida molhada pelo gramado. Tinham consigo todas as verdades do mundo. A sensação era tão boa que a lembrança fê-la sorrir instantaneamente.

Então o menino parou bem em frente a ela e, rindo, fez sinal para que fosse até ele.

"Vem, dona Zuleica!" gritou ele "A chuva tá ótima!"

E ela foi. Sem pensar. Apenas caminhou em direção à chuva. Adentrou a cortina prateada de água gelada hesitante, com os passos trôpegos dos joelhos doloridos, mas envolvida por uma felicidade há muito tempo não sentida. A caminhada daquele dia rendera muito mais do que o esperado. De olhos fechados, deixou que a chuva escorresse pelo rosto e sorriu. Sorriu contente aquele sorriso que somente as crianças sabem sorrir.

- Tinha de volta consigo todas as verdades do mundo.

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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Ode à Escrita

Palavras.

Letras pretas sobre o branco juntando-se aleatoriamente em conexidades linguísticas.

Frases.

Junções de caracteres em busca de sentidos gramaticais.

Contos (e poemas e romances).

Quebra-cabeças de pensamentos estrelados que não cabem em si mesmos e consolidam-se em constelações mágicas de fragmentos de linguagem.

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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Passatempo

É de manhã, faz um lindo Sol lá fora e você encontra-se trancado em um cubículo branco e cinza de frente para um computador.

Deveria estar trabalhando, criando, desenvolvendo qualquer coisa (in)útil para o ainda mais (in)útil mercado de trabalho.

Mas está com preguiça.

Toda a sua capacidade cognitiva está descansando tranquilamente recostada em cadeiras de praia à beira-mar e tomando drinques refrescantes adornados com guarda-chuvinhas coloridos.

E você só poderá juntar-se a ela quando o relógio finalmente marcar seis horas da tarde.

Ainda são onze horas da manhã.

Pois bem.

Como o que não há remédio remediado está, creio que o melhor a se fazer é, então, escrever para passar o tempo.

Sim, isso pode ser algo interessante.

Vamos lá: ferro de passar roupa, tomada, eletricidade, água, tábua.

Tempo se passa com vinco? Ou sem vinco?

Droga, minha mãe sempre me disse que eu precisava aprender a passar roupa, não o tempo.

Uma borrifada d'água aqui, uma dobradinha ali; não deve ser assim tão difícil, afinal.

Só é preciso muito cuidado para não queimar, realmente. Tempo queimado cheira mal, causa estresse e bolhas nos pés.

Lá lá lá, e, voilá!, um tempinho passadinho rapidinho!

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Certo. E que faço eu agora com todo esse tempo que ainda está por passar?

Tenho a impressão de que ele ficaria muitíssimo melhor passado se eu estivesse fazendo qualquer outra coisa que não isto que deveria estar fazendo.

Sim, de fato.

Sinta o gosto dele, realmente está muito mal-passado, você não acha? Está mesmo quase cru, eu diria; veja só todo esse sangue que ainda escorre.

E nem adianta colocá-lo um pouco mais no fogo, tempo mal passado é imutável, permanece assim para toda a eternidade, feito cinza de lembrança.

Para que o tempo fique bem passado é necessário que assim seja desde o início, como você bem deve saber.

Desde o início.

E o quê diabos seria o início?

Bem, imagino que o início do tempo relativo seja relativo, enquanto o início do tempo absoluto é absoluto.

Agora, o que de fato seria tempo, relativo, absoluto e, conseqüentemente, o início, "decifra-me ou te devoro", a resposta para todas as perguntas não passa de um pedaço de queijo suíço com quarenta e dois buracos de diferentes tamanhos. E tamancos brancos. Francos. Aos prantos.

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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Sobre Deus, pelo Velho Eremita da Montanha Azul De Bolinhas Vermelhas

Deus?
Certamente já está na hora de um novo deus tomar o poder.
Claro, nada mais natural.
É assim desde sempre, não é?
Um deus assumindo no lugar do outro, eu quero dizer.
Ciclo natural do Universo, todo mundo sabe disso.
O problema seria se se tentasse recolocar um antigo deus no poder: aí, sim, as coisas poderiam ser bastante catastróficas.
Porque os deuses antigos estão seguramente mortos.
Ou esquecidos.
Ou mais preocupados em encher a cara e jogar pingue-pongue em algum planeta aleatório com uma espécie pseudo-inteligente muito mais interessante do que a humana.
Você não acha?
Pois bem.
Que tal uma partida de bolinhas de gude?

...

Uma coisa é você acreditar em algum deus. Outra, é ele acreditar em você.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Vício

(Dedicado a certo moço de cabelos compridos e olhar de escorpião que anda construindo castelos psicodélicos nos meus pensamentos nestes últimos tempos.)

Os copos,
Os corpos,
Os toques.

O pulso.
(Seu pulso.)

Seu rosto,
Seu beijo,
Seu riso.

Você:

Meu vício.

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